Carlos Eduardo Moura | blog

20 September 2008

A crise nos EUA

Filed under: Mundo, Economia — Carlos Eduardo Moura @ 9:36

Acho o liberalismo econômico um troço bem bacaninha. Tem muita gente por aí falando besteira, como se o “receituário neoliberal” tivesse levado à crise atual nos EUA.

Por outro lado, sou também favorável ao Estado. Não entro no Fla x Flu que muitos colocam, do tipo “Ou Estado ou Mercado”.

O Estado precisa existir, é óbvio isso, mas muito mais como regulador. Os críticos que estão falando besteira acreditam que os liberais pregam apenas o “mercado livre”, zero de Estado. Não é bem assim.

O Estado tem de regular o mercado. Tem de haver regras claras para o jogo. O mercado não se regula sozinho, em muitos dos casos. Há corrupção, lobbies, falcatruas etc. e tal.

E sobre a ajuda do Fed aos quebrados, me parece meio óbvio que isso tem de acontecer. É essa ajuda – com dinheiro público, sim – ou um possível efeito dominó e quebradeira geral. E quem perderia mais, no fim das contas, seriam os cidadãos, pois não – haja vista que o setor é fundamental para o bom funcionamento da economia em geral.

É fácil criticar a ajuda. “Ah, os bancos falidos que se fodam”. Sim, concordo; muitos perderão muita grana, mesmo com a ajuda. Mas seria pior sem - e pra todo o mundo, literalmente. Até os chineses (na teoria, bem na teoria, comunistas) estão torcendo para que o mercado americano se recupere.

Ainda no Estado x Mercado
Prefiro muito mais uma empresa privada prestando serviços para mim do que um órgão estatal que atue em monopólio. No setor privado, há metas, há concorrência, há maior preocupação em prestar bons serviços (ainda que isso nem sempre aconteça).

Existem exceções? É claro que sim. Isso não é regra. Só para mentes binárias é que isso existe. Eu mesmo sou cliente do Banco do Brasil, por exemplo. Agora imagina se apenas o Banco do Brasil pudesse atuar no mercado. Seria uma tragédia.

Sr. Boo, não vai me vá bater pesado em mim, ok? Educação, classe e gentileza nos possíveis comentários. Hahah.

24 March 2008

Salve o banco

Filed under: Economia — Carlos Eduardo Moura @ 8:44

Cristalino o Carlos Alberto Sardenberg no Estadão de hoje:

“Uma reação esperada sustenta que não faz sentido o governo colocar dinheiro público para salvar banqueiros. Outra diz que esse tipo de intervenção mostra que os mercados não podem ser deixados soltos, que o governo precisa intervir sempre, porque senão o capitalismo come o capitalismo.

Dois equívocos.

A operação do Fed não salvou os donos dos bancos. Salvou o banco, isto é, o dinheiro que as pessoas e as empresas tinham lá depositado e aplicado. Salvou também os credores do banco. Os acionistas perderam. Foram praticamente obrigados a vender suas ações a US$ 2 cada uma, um preço de liquidação. No ano passado, antes da crise, a ação do Bear Stearns chegou a ser negociada a US$ 169.

Além disso, a intervenção, na verdade, salvou todo o sistema bancário. Se o quinto maior banco do país, um conglomerado internacional, fosse à lona em conseqüência de uma corrida de depositantes e investidores para sacar seus recursos, instalar-se-ia uma crise de confiança de tal ordem que a atitude mais sensata de qualquer pessoa seria ir a seu banco, qualquer banco, e sacar seu dinheiro. Como não há dinheiro para todos, bancos quebrariam e milhões perderiam suas poupanças. Por isso, os banqueiros centrais, mundo afora, não pensam um minuto para salvar um banco quando existe a menor ameaça de uma quebradeira de todo o sistema. Esta falência imporia um tal dano à economia e à sociedade que justifica o custo da operação.

Sim, toda esta argumentação vale para o brasileiro Proer, que muitos analistas internacionais consideram uma das melhores ações de saneamento de um sistema financeiro nacional. Aliás, alguns disseram que a intervenção do Fed foi, assim, digamos, meio tosca. Foi, porém, o que dava para fazer nas circunstâncias.”

13 September 2007

Estatais

Filed under: Brasil, Egotrip, Economia, Política — Carlos Eduardo Moura @ 7:50

Eu, num passado bem recente, era uma pessoa cheia de dogmas. Eu era jovem e idealista. Não concordava em ver “meu” país ser “vendido” a “preço de banana” por aí, que coisa. Eu acreditava que o Estado devia ser o dono de 100% de “nossas” riquezas. Eu acreditava que, no Brasil, um governo poderia ser ético, honesto e não usar as estatais em benefício próprio. Eu cheguei a acreditar que políticos queriam dirigir as estatais apenas pelo bom salário que receberiam. Vê se pode.

Essa lengalenga toda porque eu queria falar desse negócio de plebiscito da reestatização da Vale do Rio Doce, uma idéia tão sem cabeça, que me deu preguiça danada, mas eu resolvi mesmo assim tocar no assunto.

Em primeiro lugar, os que defendem essas estrovengas estatais acreditam piamente que isso seria melhor para o Brasil, pois uma estatal estaria interessada primeiro no consumidor, depois no lucro – ou melhor, uma estatal não precisaria ter lucro nenhum, podendo arcar até com prejuízos. Aí começa o problema: sem lucro, há sucateamento; com sucateamento, quem se dana é o consumidor.

Segundo: as estatais são fontes excelentes para os políticos arrumarem recursos para as eleições. Só não enxerga isso quem tem a visão embaçada por uma ideologia muito chinfrim. As estatais sofrem uma influência tremenda dos que estão no poder. São usadas por eles. É isso o que se quer? Quando você vê Lula dando a direção de Furnas ao PMDB (Luiz Paulo Conde), não é porque ele achou que o cidadão vai dirigir bem a empresa. Ele deu a direção porque foi pressionado a fazer isso. E aceitou a pressão. É assim que funciona – o presidente precisa amealhar apoios.

Quanto mais o Estado brasileiro se livrar dessas estatais pesadas, morosas, que só sugam dinheiro, melhor. Menos pressão e menos poder o Estado vai ter para fazer jogos sujos, chantagens e lobbies. É tão difícil perceber isso? Agora, obviamente eu não estou querendo dizer que tudo deva ser privatizado. O Estado tem um papel fundamental na vida de um país. Deve(ria) prover saúde, educação básica, cuidar das ruas, estradas, dar segurança, saneamento básico etc. a todos

Agora, queria citar alguns dados sobre a Vale. Num artigo no Estadão de domingo passado, Suely Caldas mostra alguns dados impressionantes:

Em 1997, ano da privatização, a empresa pagou US$ 110 milhões em impostos e dividendos. Em 2006, o número foi 23 maior: US$ 2,6 bilhões. De 97 a 2006, o número de funcionários aumentou 5 vezes, de 11 mil para 56 mil. As exportações triplicaram, de US$ 3 bilhões para US$ 9 bilhões. A produção passou de 100 milhões de toneladas para 250 milhões (ano).

Um número que eu achei impressionante: em 54 anos de controle estatal, a Vale investiu US$ 24 bilhões. De 2001 a 2006, ela investiu US$ 44,6 bilhões. O dobra, praticamente, em 20% de tempo. Mais: o Estado recebe quantias 20 vezes maiores hoje do que quando a empresa era estatal.

Então, porque a grita dos reestatizantes?

UPDATE

De Lauro Jardim na coluna “Radar” da VEJA deste fim de semana:

“O senador Edison Lobão (DEM/MA) votou a favor de Renan Calheiros, apesar de o seu partido ter fechado questão em torno da cassação. Beleza. Nos dias que antecederam a votação no Senado, Lobão recebeu uma notícia que amoleceu mais ainda seu coração com grossas artérias governistas: seu filho, Marcio, foi indicado pelo Banco do Brasil para presidir a Brasilcap, empresa de títulos de capitalização. Marcio, aliás, é sócio do pai em quatro emissoras de TV no Maranhão”.

5 September 2007

Simulador da Bolsa de Valores

Filed under: Egotrip, Economia, Internet — Carlos Eduardo Moura @ 3:31

Muito interessante esse Folha Invest, um simulador do mercado financeiro. Você se cadastra e ganha R$ 100.000,00 fictícios para investir na Bolsa de Valores, além de já ter uma carteira mínima formada. Aí é se escolher as melhores aplicações e ver o resultado. Serve como um teste para quem quer investir nisso mais pra frente, como eu.

Me cadastrei hoje e já comecei a fazer alguns investimentos. Quero ver se depois vou comentando alguma coisa por aqui. O meu ganho hoje foi de 0,10% - devo parte disso à subida das ações da Vale.

17 August 2007

O valor do amanhã

Filed under: Economia, Literatura — Carlos Eduardo Moura @ 9:27

Ao lançar há dois anos o livro O Valor do Amanhã, o economista e filósofo Eduardo Giannetti não se dirigiu ao leitor habitual de sua área, alertando no prefácio tratar-se de uma obra destinada a leigos. A idéia que o animava era bastante simples: ele falaria de juros, sim, mas não da maneira árida como se espera de um economista. O sucesso do livro foi tanto que inspirou uma série de dez programas de curta duração (10 minutos) inseridos no Fantástico, da TV Globo, a partir do próximo domingo. Dirigido pela cineasta Isa Ferraz, a série pretende mostrar como a vida das pessoas - do brasileiro, em particular - é afetada pela falta de planejamento, como se fôssemos exterminadores do futuro. Giannetti parte do princípio que todo ser humano, independentemente de sua conta bancária, é um economista intuitivo. Só que pode estar alocando recursos em lugar errado.

Matéria completa do “Estadão” aqui.

Acho que será uma série bem interessante, como foi a do Marcelo Gleiser sobre astronomia. Li o livro do Giannetti no começo do ano. Posso dizer que ele mudou um pouco a minha forma de pensar sobre algumas coisas. Giannetti não trata, no livro, de juros como uma instituição inventada por banqueiros gananciosos que querem explorar os outros; mas sim como uma coisa natural. As indagações principais são: viver o dia e simplesmente não se preocupar com o amanhã ou viver cada dia pensando no amanhã? Abrir mão de algo no presente pensando no futuro ou usar todo o disponível no presente da melhor forma possível? Viver agora e pagar depois ou pagar agora e viver depois?

(A partir daqui, segue um texto que fiz logo depois de ler o livro. Não sei porquê, devo ter esquecido, nunca publiquei-o aqui. Vai agora.)

Giannetti demonstra que o conceito de juros vai além do modelo praticado no mercado financeiro. A idéia de juros, diz ele, está presente em diversos processos naturais. A formação de gordura é um exemplo. Nosso corpo armazena calorias em excesso para consumo futuro, funcionando como uma espécie de “poupança” precaucionária.

O envelhecimento é outro exemplo. Nossos genes estão programados para dar seu melhor durante a juventude, ainda que isso implique custos futuros. A conta é descontada na velhice, com a decadência do corpo (senescência). “A plenitude do corpo jovem se constrói às custas da tibieza do corpo velho”, resume Giannetti. Viver agora, pagar depois.

Há uma boa razão para que nossas células dêem o seu melhor o quanto antes: a vida no ambiente natural pode ser extremamente arriscada e o perigo de morte acidental ou em brigas pela sobrevivência é grande.

Nosso passado ancestral exigia grande vigor físico no presente. Por isso, “o corpo jovem toma recursos adiantados do corpo velho, faz a festa, canta a vida, lança fogos e balões a que tem direito e empurra o ônus da dívida para o amanhã”.

Mas o ser humano não se resignou à sua condição natural. Ao passar dos anos, ele se distanciou do seu passado ancestral primitivo e passou a fazer escolhas pensando no futuro, de forma mais ou menos sistemática. “O pano de fundo dessa mudança radical foi a ampliação da percepção do tempo – um extraordinário alargamento da faculdade de imaginar o futuro e reter na memória a experiência passada visando conhecer e modificar o amanhã”, explica o autor.

Mundo vegetal
Ainda no terreno da biologia, o mundo vegetal, pródigo em poupar e mudar tendo em vista sua sobrevivência, dá outros exemplos. Algumas plantas e árvores, antes de iniciarem a desfolha, têm o cuidado de evacuar das folhas seu conteúdo, absorvendo assim os nutrientes – sais minerais e nitrogênio – em seu metabolismo. Esses vegetais estocam esses recursos no tronco ou no caule para uso futuro.

Árvores frutíferas também têm outro mecanismo interessante. Para elas, apenas produzir sementes não basta. É preciso espalhá-las para que possam germinar. Diz o autor: “Elas (as frutas) clamam, por assim dizer, por serem comidas e saboreadas, mas não sem antes fixar uma condição crucial.”

“As árvores que dão frutos não se limitam a praticar a arte e o engenho da paciência em seu metabolismo – elas ensinam aos animais o saber esperar.” A fruta madura é aquela cujas sementes estão no ponto certo para serem espalhadas por animais e insetos. Quando verdes ou passadas, têm gosto amargo. Quando maduras, são a recompensa que os vegetais oferecem aos que, agindo no momento certo, involuntariamente contribuem para a manutenção do seu ciclo reprodutivo.

Vida breve
Apesar de não sabermos por quanto tempo viveremos, pensar no futuro é uma necessidade humana. Escolhas têm de ser e são feitas todos os dias. Mas que peso atribuir ao futuro, em contraposição ao momento? Seria mais interessante colocar “mais vida em nossos anos” ou “mais anos em nossas vidas”?

Nos últimos tempos, registrou-se um rápido aumento da longevidade. Nunca foi tão importante planejar a vida para daqui a 30 ou 40 anos. A média de esperança de vida mundial passou de 53 anos em 1960 para 67 anos nos dias de hoje. A esperança de vida aumentou mais nas quatro últimas décadas do que nos 4 mil anos precedentes (impressionante este dado, não?). Quem nasce hoje vive quase o dobro do que vivia alguém nascido no início da revolução industrial do século XVIII.

E viver por mais tempo quer dizer estar preparado para uma nova vida depois da aposentadoria. “Um repensar de valores e formas de vida e um conjunto de providências práticas que dizem respeito à maturidade e à velhice mas deveriam se fazer presentes desde as etapas formativas da infância e juventude”, diz Giannetti.

Miopia e hipermetropia
No livro, Giannetti aborda também os fenômenos de miopia e hipermetropia temporais. No primeiro caso, é quando o indivíduo atribui um valor demasiado ao presente, em detrimento daquilo que está mais à frente. Com a hipermetropia é o contrário, ou seja, quando é atribuído valor excessivo ao amanhã, em prejuízo do presente.

De um lado, o sujeito que vive apenas o presente sem se importar muito com o futuro e do outro o que se preocupa com o futuro ao invés de pensar mais no presente.

Tornar-se um poupador inveterado e guardar tudo para o amanhã pode ser arriscado. O dinheiro, um recurso que, em tese, deveria melhorar a vida no presente, pode vir a tornar-se um senhor tirânico. Em nome do quê tamanho apego ao dinheiro?

No outro oposto, viver em um eterno carpe diem também pode ser igualmente arriscado. Afinal, o futuro pode ser extremamente árido e doloroso para os imprevidentes que não planejaram a vida para uma existência mais longa.

Bom, eu vou parando por aqui. Assistam à série. Acho que vai valer a pena.

Roberto Campos comenta Paulo Francis

Filed under: Economia, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 9:00

Em minhas numerosas conversas com Paulo Francis, em Manhattan, dei-me conta de que ele, após um processo longo de desmistificação, havia percebido melhor que muitos economistas profissionais a receita misteriosa do desenvolvimento econômico: liberdade competitiva numa economia de mercado e entorno institucional e judiciário respeitador das regras do jogo. As ”riquezas naturais”, supostamente cobiçadas pelos imperialistas, não são fundamentais, pois o Japão enriqueceu sem elas. A educação não garante o progresso, pois a Rússia entrou em colapso anos após realizada a fórmula de Lenin: educação mais eletrificação. É importante a taxa de poupança, mas só se os investimentos não forem desperdiçados. A moeda estável seria uma condição necessária, porém não suficiente. Também o capitalismo não basta, a não ser que seja liberal e competitivo, pois são desastrosos os capitalismos de estado.

Tendo sofrido na base autoritária brasileira por seu fanatismo pelas liberdades políticas, passou nos Estados Unidos a ser um fanático também da liberdade econômica. Para trás ficaram as ingenuidades do Estado benfeitor, das estatais estratégicas, do controle social de preços e de mercado. Eram caipiragens retrógradas. De uma visão marxista do governo como um ”justiciador”, passou a uma visão nietzschiana do governo como um ”predador”. (…)

As crônicas que publicou, ao longo dos anos, sob a rubrica ”Diário da Corte” eram um esquisito buquê de crítica literária e artística, análise política, palpitologia econômica e saborosa psicanálise de amigos e inimigos. Seu estilo era inconfundível e inimitável. Afinal de contas, há muitos escritores, mas poucos pugilistas de idéias. Deixa um vácuo em nossa paisagem literária. É uma pena…

Roberto Campos, 09/02/97, in “Folha de S. Paulo”

(Em fevereiro de 2007)

Friedman e Fields

Filed under: Economia — Carlos Eduardo Moura @ 8:59

Milton Friedman meets Bob Fields, por Paulo Roberto de Almeida (indicado pelo Guilherme Fiuza):

“A gente passa a maior parte da nossa vida pregando no deserto, tentando convencer os homens a defender a sua prosperidade através da liberdade de mercados e da competição. Seduzidos pelos falsos profetas, que são os políticos, eles têm essa tendência inexplicável a preferir mais e mais leis, regulação e despesas públicas, como se esperassem que o Estado lhes fosse trazer a felicidade eterna. Como você bem sabe, Bob, essas boas intenções sempre produzem resultados deploráveis. Só depois que a gente se vai é que eles começam a se convencer do acertado de algumas idéias simples”.

“Surpreende-me que in Latin America todos gritam contra o neoliberalismo, quando o Chile é o único país da região que cresce continuamente há quase duas décadas.”

“Também pudera, Bob, você mesmo, com todo o seu credo liberal e privatista, fez mais para impulsionar o poder do Estado do que todos esses universitários marxistas que se reúnem regularmente para pedir mais controle de capitais e do câmbio, mais gastos públicos, menos abertura econômica, não aos acordos comerciais. Tell me frankly, Bob, você não se arrepende hoje desse stalinismo para os ricos que vocês criaram no Brasil?”

“Não é nada disso, Milton, o seu esquema se dirige aos working poors, ao passo que o nosso programa praticamente não tem contrapartidas e não constitui a remuneração por qualquer tipo de atividade. É muito diferente. Mas ele é obviamente muito apreciado pelos políticos, que constituem com isso um imenso curral eleitoral.”

“Repita comigo, Bob, algumas verdades simples, que funcionam em qualquer tipo de economia. O segredo para o crescimento sustentado e o desenvolvimento social é uma boa combinação de quatro elementos essenciais: macroeconomia estável, microeconomia competitiva, alta qualidade dos recursos humanos e inserção nos fluxos dinâmicos de comércio e investimentos. Isso não tem nada a ver com economia keynesiana, austríaca, liberal ou neoliberal. É uma diferença entre boa e má economia. As simple as that!”

(Em fevereiro de 2007)

Economista é conservador?

Filed under: Economia — Carlos Eduardo Moura @ 8:46

A questão é boa: estudar economia faz as pessoas serem mais conservadoras? Greg Mankiw, professor de economia em Harvard, respondeu esta pergunta de uma estudante.

A tradução é do Pedro Dória no Weblog do Nomínimo:
Creio que a resposta, de certo modo, sim. Minha experiência é que muitos estudantes percebem que estão mais conservadores após estudarem economia. Há pelo menos três razões relacionadas.

Primeiro, em alguns casos, estudantes começam com uma visão utópica de política pública onde um governo benevolente pode resolver os problemas. Uma das primeiras lições da economia é que a vida é cheia de trocas. Esta percepção, quando completamente resolvida, faz com que muitas visões utópicas fiquem menos atraentes. Quando você percebe que há uma troca entre igualdade e eficiência, como chamou atenção o economista Arthur Okun, muitas decisões de políticas públicas ficaram mais difíceis.

Segundo, algumas das sacadas da economia fazem de qualquer um mais respeitoso perante o mercado como mecanismo de coordenação da sociedade. Como os participantes do mercado são motivados pelo próprio interesse, é natural que as pessoas suspeitem de sociedades baseadas no mercado. Mas após compreender sobre os ganhos do comércio, a mão invisível e a eficiência de equilíbrio do mercado, qualquer um passa a ver este mercado com um certo grau de admiração e, até, profundo respeito.

Terceiro, o estudo de políticas públicas faz com que os estudantes reconheçam que a realidade política em geral se desvia das esperanças idealistas. Muito da redistribuição de renda, por exemplo, é direcionada não aos que precisam mas sim àqueles com poder de pressão política.
Por estas razões, muitos estudantes que fazem cursos introdutórios de economia ficam mais conservadores – ou, para ser mais preciso, mais liberais no sentido clássico. Mas o estudo de economia não determina a ideologia política de ninguém. Conheço bons economistas que são de centro-direita e muitos que são distintamente de centro-esquerda. Aqui no meu departamento em Harvard, eu diria que os democratas são maioria.

(Em dezembro de 2006)

Pinochet, um criminoso

Filed under: História, Mundo, Economia, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:42

Augusto Pinochet, o ex-ditador do Chile morto semana passada, ao falar sobre a ditadura que governou de 1973 a 1990, disse que seus atos não tinham outro propósito senão o de engrandecer o Chile e salvá-lo do comunismo. Em entrevistas recentes, Pinochet se dizia um “democrata”.

Pinochet deu um golpe de estado no dia 11 de setembro de 1973. Na tomada, ordenou o bombardeio e o cerco ao Palácio de La Moneda, rendido após três horas de combate. No Palácio, estava o então presidente Salvador Allende, encontrado morto. A versão oficial diz que ele cometeu suicídio.

Assim que tomou o poder, Pinochet dissolveu o Congresso, colocou os partidos políticos na clandestinidade e restringiu os direitos civis. Mandou matar, torturou, censurou e perseguiu opositores. Era acusado também de ter sido um dos líderes da Operação Condor, rede de seis ditaduras da América Latina que perseguia e matava opositores. Estima-se em três mil o número de pessoas que foram mortas e em 30 mil o número de torturados durante a ditadura chilena.

Em 1980, Pinochet propôs um referendo (possivelmente fraudado), onde a maioria do povo chileno escolheu pela sua permanência. Em 1988, em novo referendo, o povo escolheu por eleições (com mais de 53% dos votos) livres, realizadas em 1989. Pinochet saiu do governo em 1990, embora tenha feito parte do comando do Exército até 1998, quando se tornou senador vitalício.

De 2004 pra cá, Pinochet também carregou o peso de ter sido corrupto. Cerca de 27 milhões de dólares foram encontrados em contas abertas em paraísos fiscais.

Entre militares, diz-se que ele salvou o Chile do comunismo e que o Chile vivia um momento tenso, de violência política e que Salvador Allende fora eleito com apenas 36% dos votos válidos (não sendo, portanto, “legítimo”). Os generais diziam que Allende faria um governo autoritário e comunista. Outra crítica é que, no tempo em que ficou no poder (1970-1973), Allende destruiu a economia e quis passar por cima de liberdades civis e a propriedade privada. Ou ainda que teria começado uma onda de estatização que levaria o Chile ao buraco. Juntando-se a tudo, ainda havia a forte pressão dos EUA contra Allende.

O fato é que o socialista Allende iniciou uma forte onda polarizadora na sociedade. Até Fidel Castro chegou a visitar o Chile nesta época. Polarizações são sempre perigosas. Servem para um governante fazer o que quiser no poder pela “causa” (não importa qual seja) e ter apoio considerável. E restará sempre o argumento de que o “outro lado” é o diabo.

Mas, claro, é muito fácil dizer isso tudo contra Allende como forma de legitimar um golpe. É totalmente estúpido, na verdade. Se fôssemos pensar desse modo, não dá pra saber o que seria pior: se uma ditadura socialista ou uma militar. As duas, de qualquer forma, seriam reprováveis sob qualquer ponto de vista.

Pinochet pegou um país quebrado, em 1973, com altas taxas de inflação, e tornou a economia chilena em uma das mais estáveis do continente. O Chile foi um dos primeiros países a implementar o modelo liberal na América Latina. Não a toa, o Chile é considerado um dos melhores países da região.

Mas defender Pinochet tomando por base o tipo de economia que ele impôs no Chile seria uma bobagem absurda. Até porque o conceito liberal de sociedade não diz respeito apenas à economia. (Pena que tal bobagem, à esquerda, seja válida, a exemplo de Fidel Castro, que está há 47 anos agarrado ao poder.)

Pinochet deve ser lembrado, antes de tudo, como criminoso. E não como um “liberal”.

(Em dezembro de 2006)

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