Carlos Eduardo Moura | blog

20 September 2008

Algumas palavras sobre Lula

Filed under: História, Brasil, Egotrip, Nonsense, Política — Carlos Eduardo Moura @ 2:30

Vou dizer em poucas palavras o que penso do presidente Lula. Segurem-se.

Escrevo este texto por dois motivos: pelo texto de Rafael Galvão (que não leio, mas foi linkado em alguns blogs que leio) e pelas declarações de Lula sobre o casamento gay.

Sobre o casamento gay. Eu acho que cada um faz o que quiser de sua vida, desde que siga condutas minimamente aceitáveis por todos - como, sei lá, não matar, não roubar etc. Não precisa nem ser educadinho e gentil.

Se dois homens e/ou duas mulheres querem casar-se entre si, ok. São livres para fazer o que quiserem. Não é o Estado ou uma religião que deve proibi-los. A religião até pode dizer: “Olha, isso não é legal, você vai pro inferno”, etc. e tal, porque uma religião segue quem quer. Não tem efeito legal nenhum, num Estado laico. Mas o Estado não pode ter o direito de interferir na vida das pessoas.

Sobre o texto do Galvão (haaaaja coração…!). Acho que o maior mérito do Lula foi não ter feito nenhuma bobagem na economia. Seguiu a política de FHC que vinha dando certo - de cabo a rabo. Deixou técnicos no Banco Central e botou lá um bobão feito o Guido Mantega pra fazer figuração no Ministério da Fazenda. Ok, faz parte. Ainda bem que Lula perdeu as eleições anteriores a 2002 que disputou. Imagina o Lula querendo estatizar os bancos…

Diz o Galvão: “Ao longo dos últimos seis anos, assisti à oposição fazer de tudo para desacreditar o presidente que eles não conseguiram derrubar”.

À oposição cabe fazer oposição. O PT passou bons anos fazendo isso, de forma tosca muitas vezes - quem se lembra das críticas ao Plano Real? Era torcida contra mesmo. Mas se renderam, depois. Não acho que a oposição quis derrubar Lula. Sempre há as exceções. Mas, no geral, havia a tese do “vamos deixar Lula sangrar”. Sangrou, não caiu e ainda por cima voltou mais popular. Faz parte do jogo.

Aliás, registre-se aí que, no auge do mensalão, Lula pedia a Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, para “conversar com o Fernando Henrique”, para tentar esfriar as coisas. E FHC atendeu aos pedidos e, realmente, deu uma esfriada na coisa. Fico tentando inverter isso e não consigo imaginar Lula pedindo menos ímpeto de seus correligionários. Isso me lembra Tarso Genro gritando e pedindo a renúncia de FHC… golpistas, sei, sei.

“Chamaram-no de despreparado — e com o ele o Brasil passou a ter uma proeminência internacional que está matando Fernando Henrique Cardoso de inveja e despeito, aos pouquinhos”.

A gente podia dar uma incrementada na frase acima, sei lá, sugestão: “Chamaram-no de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro em puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro”. Que tal?

O Brasil vem crescendo, se desenvolvendo e ganhando “proeminência internacional” não por conta de Lula, e sim por conta de um processo, lento, que teve início no governo Collor, quando o país se abriu ao mundo. Lula vem dando seqüência. Poderia até dizer que o Brasil cresce “apesar do Lula no governo”, mas hoje já não é mais por aí.

“Chamaram-no de analfabeto — e ele criou o ProUni.”

O que tem a ver uma coisa com outra? E o ProUni, bem, o ProUni… aquele projeto que paga faculdades fundo-de-quintal para receberem alunos de baixa renda, negros e indígenas, que não teriam condições de entrar nas federais ou nas boas particulares. Sou totalmente contra. Mas acho que não vem caso discutir isso agora. Fica pra uma próxima.

“Lula venceu. E a oposição jamais vai conseguir admitir que, do pedestal de sua arrogância, de sua escolaridade, perdeu para um pau-de-arara de Garanhuns, que mostrou que não era ela a mais preparada para dirigir um país do tamanho do Brasil. E por não entender isso, por discordar do projeto de país encabeçado por Lula, essa oposição se perdeu completamente, pregou o golpe às vésperas da eleição, apostou na mentira e no engodo, se recusou a admitir que o país estava melhorando.”

Lula venceu e governou. A oposição aceitou e faz - porcamente, vá lá - oposição. Não vi - mais uma vez - pregação de golpe. Esse pessoal adora deixar as coisas mais heróicas e dramáticas. Menas, menas. Só falta dizer que Lula precisou pegar em armas para ir para o poder. Lutou semanas contra a oposição raivosa e golpista, combateu e foi combatido, sangrou e fez sangrar, matou e morreu um pouquinho (é highlander), mas sobreviveu e mudou a história do Brasil. É isso aí mesmo. Bem por aí. Nunca antes na história deste país tivemos um presidente tão corajoso e gostosão - só o Gegê chegou perto.

“…eu aproveitava para tirar fotos da bundinha do presidente.”

Preciso comentar?

“Tem a ver com uma posição tomada que, mais uma vez, me deu orgulho do presidente que tenho, em quem votei e de cujo projeto indiretamente faço parte. Lula foi o primeiro presidente a dizer que é a favor da união civil de homossexuais, e a Igreja que se vire com isso. Eu tenho orgulho de ter um presidente como Lula.”

Olha, não vou pesquisar se outros presidentes disseram isso ou não. Mas ter orgulho de político? Pedro Sette Câmara escreveu a frase perfeita: “O que me parece pueril e vergonhoso é o fervor que se pode sentir por um político” (ele escrevia sobre Sarah Palin e Barack Obama). É isso.

Além disso, o que mais dá pra falar? Lula é craque em soltar pérolas. “Nunca antes na história desse país…”, e tome discurso populista sobre qualquer assunto possível: petróleo, educação, saúde, moradia, segurança, política externa, futebol etc. Quantas vezes você viu FHC falar de “herança maldita”? E olha que ele tinha motivos. Depois do furação provocado por Collor, o país estava fodido, basicamente - a inflação anual chegou a 2.477% em 1993. Em 98, a inflação chegou a 1,6% por ano.

Para muitos defensores de Lula, parece que figuras como Delúbio Soares, Silvinho “Land Rover” Pereira, Marcos Valério e Duda Mendonça nunca existiram. É tudo conspiração da elite pra derrubar o operário na presidência. E o Meirelles no Banco Central, hein? Não era pra ser a Maria da Conceição Tavares? Tadinha dela…

Acho um tédio ainda ficarmos discutindo isso. Tchau.

25 August 2008

As imagens que ficam

Filed under: História, Fotos, Jornalismo, Esportes — Carlos Eduardo Moura @ 8:12

Fotos e mais fotos dos jogos de Pequim.

(Roubado do blog do Ricardo Lombardi - maoê.)

17 August 2007

Pinochet, um criminoso

Filed under: História, Mundo, Economia, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:42

Augusto Pinochet, o ex-ditador do Chile morto semana passada, ao falar sobre a ditadura que governou de 1973 a 1990, disse que seus atos não tinham outro propósito senão o de engrandecer o Chile e salvá-lo do comunismo. Em entrevistas recentes, Pinochet se dizia um “democrata”.

Pinochet deu um golpe de estado no dia 11 de setembro de 1973. Na tomada, ordenou o bombardeio e o cerco ao Palácio de La Moneda, rendido após três horas de combate. No Palácio, estava o então presidente Salvador Allende, encontrado morto. A versão oficial diz que ele cometeu suicídio.

Assim que tomou o poder, Pinochet dissolveu o Congresso, colocou os partidos políticos na clandestinidade e restringiu os direitos civis. Mandou matar, torturou, censurou e perseguiu opositores. Era acusado também de ter sido um dos líderes da Operação Condor, rede de seis ditaduras da América Latina que perseguia e matava opositores. Estima-se em três mil o número de pessoas que foram mortas e em 30 mil o número de torturados durante a ditadura chilena.

Em 1980, Pinochet propôs um referendo (possivelmente fraudado), onde a maioria do povo chileno escolheu pela sua permanência. Em 1988, em novo referendo, o povo escolheu por eleições (com mais de 53% dos votos) livres, realizadas em 1989. Pinochet saiu do governo em 1990, embora tenha feito parte do comando do Exército até 1998, quando se tornou senador vitalício.

De 2004 pra cá, Pinochet também carregou o peso de ter sido corrupto. Cerca de 27 milhões de dólares foram encontrados em contas abertas em paraísos fiscais.

Entre militares, diz-se que ele salvou o Chile do comunismo e que o Chile vivia um momento tenso, de violência política e que Salvador Allende fora eleito com apenas 36% dos votos válidos (não sendo, portanto, “legítimo”). Os generais diziam que Allende faria um governo autoritário e comunista. Outra crítica é que, no tempo em que ficou no poder (1970-1973), Allende destruiu a economia e quis passar por cima de liberdades civis e a propriedade privada. Ou ainda que teria começado uma onda de estatização que levaria o Chile ao buraco. Juntando-se a tudo, ainda havia a forte pressão dos EUA contra Allende.

O fato é que o socialista Allende iniciou uma forte onda polarizadora na sociedade. Até Fidel Castro chegou a visitar o Chile nesta época. Polarizações são sempre perigosas. Servem para um governante fazer o que quiser no poder pela “causa” (não importa qual seja) e ter apoio considerável. E restará sempre o argumento de que o “outro lado” é o diabo.

Mas, claro, é muito fácil dizer isso tudo contra Allende como forma de legitimar um golpe. É totalmente estúpido, na verdade. Se fôssemos pensar desse modo, não dá pra saber o que seria pior: se uma ditadura socialista ou uma militar. As duas, de qualquer forma, seriam reprováveis sob qualquer ponto de vista.

Pinochet pegou um país quebrado, em 1973, com altas taxas de inflação, e tornou a economia chilena em uma das mais estáveis do continente. O Chile foi um dos primeiros países a implementar o modelo liberal na América Latina. Não a toa, o Chile é considerado um dos melhores países da região.

Mas defender Pinochet tomando por base o tipo de economia que ele impôs no Chile seria uma bobagem absurda. Até porque o conceito liberal de sociedade não diz respeito apenas à economia. (Pena que tal bobagem, à esquerda, seja válida, a exemplo de Fidel Castro, que está há 47 anos agarrado ao poder.)

Pinochet deve ser lembrado, antes de tudo, como criminoso. E não como um “liberal”.

(Em dezembro de 2006)

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