Carlos Eduardo Moura | blog

20 September 2008

A crise nos EUA

Filed under: Mundo, Economia — Carlos Eduardo Moura @ 9:36

Acho o liberalismo econômico um troço bem bacaninha. Tem muita gente por aí falando besteira, como se o “receituário neoliberal” tivesse levado à crise atual nos EUA.

Por outro lado, sou também favorável ao Estado. Não entro no Fla x Flu que muitos colocam, do tipo “Ou Estado ou Mercado”.

O Estado precisa existir, é óbvio isso, mas muito mais como regulador. Os críticos que estão falando besteira acreditam que os liberais pregam apenas o “mercado livre”, zero de Estado. Não é bem assim.

O Estado tem de regular o mercado. Tem de haver regras claras para o jogo. O mercado não se regula sozinho, em muitos dos casos. Há corrupção, lobbies, falcatruas etc. e tal.

E sobre a ajuda do Fed aos quebrados, me parece meio óbvio que isso tem de acontecer. É essa ajuda – com dinheiro público, sim – ou um possível efeito dominó e quebradeira geral. E quem perderia mais, no fim das contas, seriam os cidadãos, pois não – haja vista que o setor é fundamental para o bom funcionamento da economia em geral.

É fácil criticar a ajuda. “Ah, os bancos falidos que se fodam”. Sim, concordo; muitos perderão muita grana, mesmo com a ajuda. Mas seria pior sem - e pra todo o mundo, literalmente. Até os chineses (na teoria, bem na teoria, comunistas) estão torcendo para que o mercado americano se recupere.

Ainda no Estado x Mercado
Prefiro muito mais uma empresa privada prestando serviços para mim do que um órgão estatal que atue em monopólio. No setor privado, há metas, há concorrência, há maior preocupação em prestar bons serviços (ainda que isso nem sempre aconteça).

Existem exceções? É claro que sim. Isso não é regra. Só para mentes binárias é que isso existe. Eu mesmo sou cliente do Banco do Brasil, por exemplo. Agora imagina se apenas o Banco do Brasil pudesse atuar no mercado. Seria uma tragédia.

Sr. Boo, não vai me vá bater pesado em mim, ok? Educação, classe e gentileza nos possíveis comentários. Hahah.

7 July 2008

As Farc perderam

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:02

É impressionante como se diz bobagem sobre o resgate de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns. Eu mesmo corro o sério risco. Mas dizer que as Farc ganharam alguma coisa com a libertação (”simpatia” ou algo do tipo) e que Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, não obteve uma baita vitória pra mim é bobagem.

Não acredito ter havido o tal pagamento de vinte milhões de dólares ao comando das Farc. Dinheiro por dinheiro, as Farc teriam preferido o de Hugo Chávez, que já vinha tentando a libertação de reféns. Chávez é muito mais ligado ao grupo guerrilheiro e com certeza usaria uma possível libertação para tentar se colocar como “libertador” e “conciliador da paz”.

Agora, não duvido da hipótese de ter havido suborno entre o baixo clero do grupo. Mas isso não tira os méritos do Exército colombiano. Jorge Castañeda, no Estadão deste domingo, fez a melhor análise sobre a questão: “Pode ter havido outrs elementos, principalmente por conta da fragmentação da guerrilha. Dinheiro, recompensa, traições internas, tudo por ter ocorrido. Mas, se ocorreu, é porque as Farc já estão enfraquecidas. Já existe um clima de derrota resultante dos golpes recebidos nos últimos meses. Se houve traição, foi por causa desse desmantelamento. De qualquer modo, o sucesso tem a ver com o avanço do Exército. Não devemos negar-lhe esse mérito.”

Agora, Uribe cairá na tentação de mudar a Constituição do país (via referendo) e tentar se reeleger pela terceira vez. A opinião pública lhe dá mais de 90% de aprovação. É tentador dizer que Uribe deveria continuar, tamanho o sucesso na condução de políticas contra a violência e no desmantelamento das Farc, junto aos EUA no Plano Colômbia; mas essa perpetuação no poder não seria bom caminho para a democracia. Vide Hugo Chávez na Venezuela.

9 February 2008

O mundo é desigual e injusto. Ponto

Filed under: Mundo, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 6:00

Ler esta história dos estudantes cubanos que vêm fazendo críticas ao regime (aqui e aqui) - embora os estudantes sejam partidários da “revolução” -, só reforça uma coisa que penso há muito tempo: o mundo é desigual, injusto e é assim mesmo. As pessoas - em qualquer regime que seja: capitalismo, socialismo - sempre serão diferentes, sempre terão comportamentos diferentes. Sempre haverá desigualdade, injustiça. Estou defendendo isso? É óbvio que não.

Essa história de o socialismo querer igualar as pessoas, com uma pretensa “igualdade de direitos”, é uma tremenda fraude. Veja o que o governo de Fidel Castro conseguiu depois de anos e anos de ditadura (partido único, imprensa estatal etc.). As pessoas não têm sequer o direito de ler os livros que querem ler, acessar os sites que quiserem, sair do país para nunca mais voltar, se assim desejarem fazer.

A liberdade não seria muito mais interessante do que uma pretensa igualdade? Até porque, sejamos honestos, igualdade em Cuba não existe. Há e sempre haverá os privilegiados, a burguesia estatal, os que mamam nas tetas do governo - de qualquer governo.

Repetindo aqui um argumento surrado, mas válido: as pessoas têm o direito de fazer as suas próprias escolhas. Um país só crescerá assim: escolhendo, errando, batendo cabeça. É o velho aprender com os erros.

Não existe aquela lenga-lenga de não mimar demais os filhos, não protegê-los da “vida real”, para que cresçam por si só, errem e amadureçam? Pois é. O que estes governos ditatoriais querem fazer é a monumental estupidez de “proteger” as pessoas - o que é pior: achando que as pessoas são coisa, propriedade, uma massa sem direito a escolhas. Isso me soa tão velho e retrógrado. Querem proteger as pessoas da subversão, da pornografia, do comunismo, do capitalismo, das injustiças.

25 September 2007

A história da guerrilheira holandesa das Farc

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 7:30

Tanja Nijmeijer era uma jovem e idealista holandesa quando resolveu largar sua confortável e tranqüila vida para se tornar uma guerrilheira das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Em 2001, após concluir sua graduação em letras com especialização em espanhol na Holanda, ela decidiu retornar à Colômbia, onde havia passado um ano em um programa de intercâmbio. Seu objetivo era fazer trabalhos humanitários. Acabou conhecendo as Farc e se tornou uma guerrilheira. A guerrilheira Eillen.

Tanja-Eillen virou notícia pois um diário seu foi descoberto após um ataque do exército colombiano ao acampamento coordenado por Carlos Antonio Lozada, dirigente das Farc. No momento do ataque, Tanja tomava banho e não teve tempo de recolher as suas coisas. Um computador pessoal de Lozada também foi deixado pra trás. O conteúdo do diário foi revelado pelo jornal “El Tiempo” (aqui).

No diário, a guerrilheira mostra profunda decepção com a organização do movimento. “Estou cansada das Farc, cansada dessa gente, cansada da vida em comunidade e de nunca ter nada só pra mim. Que tipo de organização é essa em que alguns têm dinheiro, cigarros e doces e os demais têm de mendigar? (…) Uma organização onde uma garota com peitos grandes e rosto bonito pode desestabilizar um comando que havia trabalhado junto por muito tempo. Onde temos que trabalhar todo dia, mas os comandantes falam merda. (…) Não quero mais blábláblá sobre ser comunista, honesto, não desperdiçar, ser obediente. E logo ver quão hipócritas são os comandantes… e sem misericórdia se alguém atreve-se a criticá-los”.

Tanja diz também que os guerrilheiros precisavam pedir permissão até para namorar. “Consegui um ‘amigo’ e combinamos de ele ir conversar com o chefe para permitir que namorássemos”, ela escreve. Os líderes do movimento acreditam que relacionamentos entre guerrilheiros atrapalhariam a luta.

Mas a regra, é claro, não é válida para eles: “A mulher de um comandante é uma classe à parte. Elas têm privilégios e, às vezes, nos dão ordens.”

“Hoje há festa. É claro que os comandantes e suas esposas tiveram sua própria festa privada. Os demais, a tropa, guerrilheiros regulares, os de baixo se permitirá terminar a bebida que eles não puderam tomar ontem”.

Ela diz mais: “Cheia das FARC, dessa gente, da vida em comunidade, cheia de não ter nada para mim. Tudo valeria a pena se eu soubesse porque estamos lutando, mas eu não creio em nada mais”. “Como será quando chegarmos ao poder? As mulheres dos comandantes em Ferraris, com silicone nos seios, comendo caviar?”

Ela reclama da arrogância, da hipocrisia e do machismo dos líderes. Diz que há dois companheiros com AIDS, talvez muitos mais. Ninguém usa preservativo, ela diz. Conta que quer ligar pra casa, mas não pode. Um dia, ela liga, sem permissão. “Agora só posso esperar meu castigo. A todos é permitido ligar, menos a mim. Não é ridículo? Talvez me deixem na selva para sempre, ou talvez no me permitam sair a missões fora depois deste pecado venial”.

“Às vezes, quero deixar de seguir ordens. Seguir ordens de um monte de machistas que tratam de matar passarinhos com rifles. Além do mais, tenho que me sentir como um nada o dia inteiro; que não tenho utilidade, e que tenho que fazer o que qualquer idiota me diga ou ser multada. Cada vez tenho mais multas”.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) dizem-se uma organização político-militar de inspiração marxista-leninista que combate as classes dominantes do país. Segundo o governo, as Farc têm hoje cerca de 11 mil combatentes.

Na rápida pesquisa que fiz, vi alguns duvidando do diário, sugerindo que ele seja uma mentira plantada pelo governo colombiano. Eu sinceramente duvido muito disso. A história da jovem idealista que quer lutar por um mundo melhor e vai pros cafundós do Juda lutar é bastante crível. Infelizmente.

19 August 2007

Larry Rohter fala

Filed under: Mundo, Brasil, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 12:54

O correspondente do “New York Times” Larry Rohther fala hoje, em entrevista ao caderno Aliás, do “Estadão”, sobre o episódio da sua quase expulsão do Brasil há dois anos, por feito uma matéria sobre os hábitos etílicos do presidente. A entrevista está muito boa. Mostra bastante a diferença de mentalidade entre EUA e Brasil. Nesse caso, o Brasil ainda deixa muito a desejar.

Trechos:

A imprensa brasileira é tolerante ou crítica demais com o poder?
A questão é outra. Governar é fazer coisas. E fazer jornalismo é criticar. A crítica é um elemento-chave na profissão. Não vou ao extremo do “si hay gobierno soy contra”, mas é papel da imprensa olhar os governos e dizer “aqui está errado”. Agora mesmo, o grave acidente aéreo de SP virou símbolo de uma crise maior. Quais as razões que levaram ao desastre em Congonhas? Não sabemos. Mas há uma crise maior, crise nos serviços, afinal, somos usuários, não há como negar. Então, por que dizer que a cobertura está exagerada? Quem não lembra das críticas ao apagão de energia, feitas pelo PT, no final do governo do FHC? Falta de planejamento, falta disso, falta daquilo. Era uma crítica perfeitamente compreensível. Lembremos de como Bush apanhou da imprensa americana depois do furacão Katrina. E mereceu apanhar! Ver aqueles velhos morrendo em frente do estádio foi terrível. Pois ver os corpos carbonizados em Congonhas produz o mesmo sentimento. O povo sabe julgar. E nós, na mídia, somos instrumentos dessa opinião pública que ora castiga, ora absolve.

(…)

Quando escrevo sobre praia, futebol e mulher bonita, tem gente que pensa que estou folclorizando o País. Mas esses assuntos são parte da realidade, não há como ignorá-los. Já quando escrevo sobre as mazelas brasileiras, como miséria e racismo, daí um setor ufanista se levanta e grita “não toque no País!” Amigos brasileiros já me disseram: “Nós podemos falar essas coisas, você não”. Sou admirador de Nelson Rodrigues, que cunhou aquela expressão imortal em relação ao brasileiro, o “complexo de vira-lata”. Isso entra nessa conversa.

(…)

Na ditadura, você correu o risco de ser preso. Agora, com o País redemocratizado, correu o risco de ser expulso. Como recebe isso?
Pior: em 2004 corri o risco de ser expulso com base em lei dos anos 70, dos anos de chumbo. O Lula, perseguido pela ditadura, recorreu a uma lei da própria ditadura para me punir. Horrível.

(…)

Hoje, se você estivesse com Lula numa entrevista, perguntaria o quê?
Na comissão que investigou o escândalo Watergate, o senador Howard Baker repetia sempre a mesma pergunta em relação a Nixon: “What did the president know and when did he know it?” É a questão fundamental. Pois eu perguntaria a Lula a mesma coisa em relação ao mensalão: “Presidente, o que o senhor sabia e quando soube?”

17 August 2007

Fidel = grande democrata

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 9:22

E, ao que parece, Fidel Castro mandou, no sábado à noite, boa parte dos atletas cubanos voltarem pra pris…, digo, casa mais cedo. O medo era uma suposta deserção em massa (neste Pan, quatro atletas picaram a mula). César Tralli, da TV Globo, disse que os atletas receberam uma ordem de que teriam meia hora para arrumar as coisas e tocar o barco. E foi todo mundo pro aeroporto…

Como eu já disse aqui, e vocês devem saber muito bem, acho essa política castrista sórdida e um absurdo completo. Como é que não se pode sair de um país? Se um cubano foge, é considerado um desertor e traidor da pátria. E aí querem relativizar o conceito de liberdade, “ahh, mas em Cuba tem saúde, educação…”. Ah, é, tem mesmo? Não diga. E na bundinha, nada?

(Em julho de 2007)

Chamamos isso de autocrítica, saca?

Filed under: Mundo, Política, Jornalismo, Literatura — Carlos Eduardo Moura @ 9:08

“A Arte da Entrevista”, coletânea de entrevistas organizada pelo Fábio Altman, é bem bacaninha. Tem algumas entrevistas muito boas, como as do Freud, do Al Capone e do Hitchcock (que é onde estou agora).

Tem outras que também são muito boas, pelo menos pra você ler e ficar xingando os camaradas mentalmente: Hitler, Mussolini, Marx, Getúlio Vargas, Mao Tse-tung etc.

A entrevista com o Stalin é exemplar neste sentido. Já ouvira falar muito que o HG Wells, que entrevistou o safado em 1934, era um completo analfabeto político, mas nunca pensei que ele chegasse a tanto. Abaixo uns trechinhos.

Stalin – É, eu sei, e isso pode ser explicado pelo fato de a sociedade capitalista encontrar-se no momento em um beco sem saída. Os capitalistas buscam, mas não conseguem encontrar, uma saída para esse cul de sac compatível com a dignidade, com os interesses da classe. Eles podem, até um certo ponto, sair da crise engatinhando, mas não conseguem encontrar uma alternativa que permita sair de cabeça erguida, que não perturbe os interesses dos capitalismo.

(…)

É óbvio que o velho sistema está desmoronando, decaindo. Isso é verdade. Mas também é verdade que novos esforços estão sendo feitos para com o uso de outros métodos e de novos meios para proteger o sistema decadente. (…)

Wells – (…) Ela (uma organização de escritores) insiste na livre expressão de opiniões – mesmo de opiniões opostas. Espero discutir esse assunto com Gorki. Não sei se os ingleses estão preparados para tanta liberdade…

Stalin – Nós, os bolcheviques, chamamos isso de “autocrítica”. Ela é muito usada na URSS…

(CLARO! CLARO QUE SIM!)

(Em maio de 2007)

Saddam vai pro inferno

Filed under: Mundo — Carlos Eduardo Moura @ 8:48

William Waack:

“O enforcamento de Saddam Hussein, nas imagens não-editadas, tem a aparência de um linchamento. Para quem possa achar que um linchamento se explique, ou até se justifique, por emoções violentas, o de Saddam parece ter sido praticado a frio por um bando de criminosos sabendo que têm de agir com pressa. Os executores xingam o condenado, fazem provocações políticas e o mandam para o inferno enquanto ele faz a última prece. Ele -o ditador sanguinário- é quem surge digno e altivo.”

(Em janeiro de 2007)

A Venezuela sou eu

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:45

Saber lidar com a democracia e com liberdade de expressão é para poucos. Ler nos jornais que Hugo Chávez não vai renovar a concessão de uma emissora de TV venezuelana, a RCTV, me lembra muito a postura de muitos ditadores latino-americanos, que começam querendo controlar coisas pequenas, depois vão aumentando seu poder mais e mais e, em determinado momento, querem decidir o que as pessoas podem ou não podem assistir, ler, fazer ou pensar. Contam sempre com uma massa de manobra devidamente catequizada, a quem podem recorrer para legitimar o que fazem.

“É melhor que vá preparando as suas malas e veja o que vai fazer a partir de março, pois não haverá nova concessão para esse canal golpista que se chamou Radio Caracas Televisión”.

A RCTV é o canal privado mais antigo da Venezuela. É oposicionista e é acusado de ter apoiado, ao lado de outras quatro emissoras, o golpe (de dois dias) que Chávez tomou em 2002.

“Aqui não se vai tolerar nenhum meio de comunicação que esteja a serviço do golpismo, contra o povo, contra a nação, contra a independência nacional, contra a dignidade da república”.

É sempre assim. “Para o bem do país e do povo”, bradam. Querem decidir tudo, para o bem do país e do povo, é claro.

Willian Lara, ministro das Comunicações da Venezuela, ao responder às críticas da ONG Repórteres Sem Fronteiras, disse que a ONG “deve ir às comunidades perguntar por que a maioria das famílias venezuelanas questiona a programação, a linha editorial e informativa de muitas emissoras de TV e de rádio, entre as quais está a RCTV”.

Se a maioria das famílias venezuelanas questiona a programação e a linha editorial da TV, que deixe de assistir a porra da TV.

A vida política de certos países parece, lamentavelmente, andar pra trás.

(Em dezembro de 2006)

Pinochet, um criminoso

Filed under: História, Mundo, Economia, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:42

Augusto Pinochet, o ex-ditador do Chile morto semana passada, ao falar sobre a ditadura que governou de 1973 a 1990, disse que seus atos não tinham outro propósito senão o de engrandecer o Chile e salvá-lo do comunismo. Em entrevistas recentes, Pinochet se dizia um “democrata”.

Pinochet deu um golpe de estado no dia 11 de setembro de 1973. Na tomada, ordenou o bombardeio e o cerco ao Palácio de La Moneda, rendido após três horas de combate. No Palácio, estava o então presidente Salvador Allende, encontrado morto. A versão oficial diz que ele cometeu suicídio.

Assim que tomou o poder, Pinochet dissolveu o Congresso, colocou os partidos políticos na clandestinidade e restringiu os direitos civis. Mandou matar, torturou, censurou e perseguiu opositores. Era acusado também de ter sido um dos líderes da Operação Condor, rede de seis ditaduras da América Latina que perseguia e matava opositores. Estima-se em três mil o número de pessoas que foram mortas e em 30 mil o número de torturados durante a ditadura chilena.

Em 1980, Pinochet propôs um referendo (possivelmente fraudado), onde a maioria do povo chileno escolheu pela sua permanência. Em 1988, em novo referendo, o povo escolheu por eleições (com mais de 53% dos votos) livres, realizadas em 1989. Pinochet saiu do governo em 1990, embora tenha feito parte do comando do Exército até 1998, quando se tornou senador vitalício.

De 2004 pra cá, Pinochet também carregou o peso de ter sido corrupto. Cerca de 27 milhões de dólares foram encontrados em contas abertas em paraísos fiscais.

Entre militares, diz-se que ele salvou o Chile do comunismo e que o Chile vivia um momento tenso, de violência política e que Salvador Allende fora eleito com apenas 36% dos votos válidos (não sendo, portanto, “legítimo”). Os generais diziam que Allende faria um governo autoritário e comunista. Outra crítica é que, no tempo em que ficou no poder (1970-1973), Allende destruiu a economia e quis passar por cima de liberdades civis e a propriedade privada. Ou ainda que teria começado uma onda de estatização que levaria o Chile ao buraco. Juntando-se a tudo, ainda havia a forte pressão dos EUA contra Allende.

O fato é que o socialista Allende iniciou uma forte onda polarizadora na sociedade. Até Fidel Castro chegou a visitar o Chile nesta época. Polarizações são sempre perigosas. Servem para um governante fazer o que quiser no poder pela “causa” (não importa qual seja) e ter apoio considerável. E restará sempre o argumento de que o “outro lado” é o diabo.

Mas, claro, é muito fácil dizer isso tudo contra Allende como forma de legitimar um golpe. É totalmente estúpido, na verdade. Se fôssemos pensar desse modo, não dá pra saber o que seria pior: se uma ditadura socialista ou uma militar. As duas, de qualquer forma, seriam reprováveis sob qualquer ponto de vista.

Pinochet pegou um país quebrado, em 1973, com altas taxas de inflação, e tornou a economia chilena em uma das mais estáveis do continente. O Chile foi um dos primeiros países a implementar o modelo liberal na América Latina. Não a toa, o Chile é considerado um dos melhores países da região.

Mas defender Pinochet tomando por base o tipo de economia que ele impôs no Chile seria uma bobagem absurda. Até porque o conceito liberal de sociedade não diz respeito apenas à economia. (Pena que tal bobagem, à esquerda, seja válida, a exemplo de Fidel Castro, que está há 47 anos agarrado ao poder.)

Pinochet deve ser lembrado, antes de tudo, como criminoso. E não como um “liberal”.

(Em dezembro de 2006)

Atentado contra o próprio povo?

Filed under: Mundo, Nonsense, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:36

Chávez é uma besta mesmo. E uma besta adepta de teorias conspiratórias, o que é pior. Ontem disse que foi o próprio governo dos EUA quem cometeu os ataques às torres gêmeas do World Trade Center. “A hipótese que ganha força é a de que foi o poder imperial americano mesmo que planejou e conduziu este terrível atentado terrorista contra seu próprio povo.”

Bem, o que dizer? Bush pode ser um completo idiota, mas não seria estúpido a tal ponto - aliás, rebater um comentário do tipo é mais estúpido ainda. Vou calar minha boca.

(Em setembro de 2006)

Cuba

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:28

Emir Sader escreve na Folha deste sábado, 5 de agosto: “É o regime socialista que permite a Cuba ser o único país no mundo em que não há pessoas abandonadas, sem direitos, sem amparo, sem apoio. Em que não há crianças dormindo nas ruas.”

Pelo que sei, há prostituição em Cuba, bem como há pobreza também. Em quantidade menor do que em países como o Brasil? Talvez sim. Mas Cuba certamente é um país pobre, que até bem pouco tempo vivia a custa de subsídios da União Soviética. Fidel Castro parece nunca ter se preocupado em fazer com que seu país produzisse riquezas.

Nomes como Frei Betto, Fernando Morais e até José Dirceu reverenciam o regime castrista, como se Cuba fosse o paraíso na Terra.

Tendo a desconfiar de textos como o de Sader, embora reconheça que há alguma verdade ali (mesmo que mínima). Sader com certeza esteve em Cuba. E com certeza esteve lá convidado pelo governo, com mordomias que os habitantes locais com toda a certeza não têm acesso.

Quando se quer falar bem de Cuba, alguns elementos são logo abordados: saúde, educação, habitação. Mas no quesito “direitos” há um sério problema. Cuba não é uma democracia. Fidel comanda uma ditadura socialista fechada há 47 anos. Logo, as pessoas não têm direito à liberdade de expressão e escolhas. Geralmente quando isto é dito, muitos fecham a cara, e murmuram algo como: “Bom, mas o povo tem saúde, educação…”

Daniel Piza, que esteve em Cuba, diz: “A velha alegação de que Cuba ao menos distribui saúde e educação para todos não bate com a realidade que vi, e ninguém lúcido acredita nas estatísticas oficiais.”

O problema de boa parte das análises, na minha opinião, é que elas contrapõem modelos completamente diferentes – e modelos que têm falhas, e muitas. Quando analistas dizem que os EUA têm liberdade de expressão, isto é uma verdade, sabemos disso (Michael Moore e Noam Chomsky também sabem).

Já em Cuba essa liberdade não existe – de voto, de imprensa, de escolhas –; portanto, como acreditar, ou melhor, como não duvidar de partidários e do governo cubano? Como não duvidar de um ditador que proíbe obras literárias dentro do país? Como não duvidar de quem proíbe oposição e críticas? Que faz presos políticos? Que taxa como desertor quem quer sair do país?

Acho um pouco de covardia quando alguém diz que o modelo de Fidel não deve ser criticado por ser uma “oposição ao regime capitalista”. Democracia e liberdade de escolha são coisas fundamentais, são a base de uma sociedade, se me permitam o lugar comum. Não me sentiria bem em viver num país como Cuba, e aposto que a maioria dos que a defendem não agüentariam viver por lá mais do que umas férias.

Daniel Piza: “O país é dividido: de um lado, o país dos pesos cubanos, de carteirinhas mensais de remédios e alimentos que não dão nem para uma quinzena; do outro, o país dos dólares americanos, de prostitutas que se oferecem para os turistas a US$ 3 a cada esquina.”

Transição: o que quer o povo cubano?
Algumas coisas chamaram bastante a atenção na tal transferência de poderes. Primeiro: o apego ao poder. Fidel, aos 79 anos, esperou ficar seriamente doente para transferir seus poderes. Segundo: o traço monarquista da coisa. O poder foi passado ao irmão Raúl Castro, de 75 anos. Terceiro ponto: Fidel transferiu todos os seus poderes “provisoriamente”. É algo cômico a carta em que ele delega seus poderes. Começa sempre assim: “Delego em caráter provisório minhas funções como…”. No original, provisório deve ter sido escrito em caixa alta, negrito, itálico e com néon piscando…

Não seria mais fácil lançar um plebiscito, e perguntar diretamente aos cubanos que modelo eles querem, a partir de agora, seguir? Dois terços da população nasceu durante o regime. Mas a pergunta que se faz é: o que os cubanos querem? Enquanto ditadores acharem que o melhor para o “seu” povo é o que ele quer, nunca saberemos.

(Em julho de 2006)

Perfeitos idiotas

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:26

É engraçado como pessoas como Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Fidel Castro, o ditador cubano, ainda exerçam enorme influência em parte significativa de pessoas esclarecidas. Fico incomodado com isso, às vezes.

Ambos repetem frases e discursos atrasados, conservadores e retrógrados há já um bom tempo. E ainda esboçam um quê de ditatorialismo paternal, do tipo “se é bom pra mim, é bom pra você, cala a boca”.

Senão, vejamos o que disseram os dois numa tal “cúpula alternativa ao Mercosul”, cujo lema é “A integração é nossa bandeira antiimperialista”. Os negritos são meus.

Chávez: “O império americano está no fim” (virou oráculo); “o século 21 marcará sua morte (do império americano)”; “os povos latino-americanos precisam quebrar os esquemas do imperialismo”; “o império americano será como disse Mao Tsé-tung, um tigre de papel, e nós seremos um tigre de aço” (Jesus…); “O capitalismo semeia os antivalores do individualismo, é a causa das guerras, das misérias, da fome, das grandes desigualdades sociais” (desde quando individualismo é um “antivalor”? Cruz credo. E como se não houvesse guerra antes do capitalismo… Ele deveria falar: “O homem é a causa das guerras…”, e não o capitalismo, pô).

E Fidel? Bom, Fidel argumentou, pela centésima vez, que os EUA são os responsáveis pelos males do mundo. Ou seja, por causa deles somos pobres, burros, feios e explorados. Eles nos proíbem de sermos inteligentes, sábios e bonitões. Mais: exploram-nos. Eu diria: ainda bem que nos exploram…

“Falar que o capitalismo vai acabar no século 21 pode dar a entender que vai durar todo o século. Mas eu acho que não dura 100 anos, nem 70, nem 50 anos. Vai acabar bem antes. É que o mundo vive uma crise, neste momento, como nunca antes vimos na História.” Virou oráculo, também; e ainda vem com o papinho da “crise como nunca vimos na História”. Professor de história do segundo grau vive falando isso…

Fidel falou também que dificilmente “alguém poderia impedir o futuro de uma América Latina unida”. O “socialismo” pregado por ele, pode, sim, impedir o futuro de uma América Latina unida. Mostrando uma falta de informação absurda, ele tascou: “O Mercosul está mais pujante do que nunca.”

E ainda teve a do jornalista que perguntou sobre sua sucessão. Fidel respondeu com uma pergunta: “Você é cubano?” É como se dissesse: “Bom, se você é cubano, tem todas as razões para querer me tirar do poder”. E ainda disse mais: “Quem pediu para você fazer essa pergunta? Você é um mercenário”.

(Em julho de 2006)

Índio quer apito

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:17

A coisa que mais chamou a atenção nessa história da nacionalização do gás na Bolívia foi o fato de o presidente Evo Morales ter usado o Exército para fazer alarde. E isso porque a Petrobras já havia sinalizado que estava disposta a negociar com a Bolívia um novo contrato de exploração, alguns meses atrás.

Ou seja, o governo brasileiro não oferecia resistências ao processo que Morales queria instaurar no país. Mesmo assim, falou mais alto a veia nacionalista e populista do indígena Morales. Preferiu chutar o pau da barraca e apostar na sua imagem de defensor de uma suposta soberania do povo boliviano.

Aí o presidente Lula diz que deve reagir não com dureza, mas sim com “carinho”, e aproveita para comparar a invasão dos EUA ao Iraque - disse algo do tipo “Querem que eu invada a Bolívia como fez os EUA no Iraque?” Óbvio que não, presidente Lula. Santa ingenuidade. Lula, além de não saber de nada, não tem o mínimo tato diplomático, assim como seu “hermano” Morales, que já vai enfiando o Exército na parada (é sintomático que líderes que criticam tanto o uso militar não percam a oportunidade de usá-lo no momento que não devem). Ninguém está pedindo guerra, apenas uma reação digna de quem teve uma estatal invadida e expropriada. Em outras palavras: roubada. Se o governo brasileiro continuar reagindo assim, Morales vai continuar falando grosso. Esperar pra ver.

A Petrobas investe na Bolívia há 10 anos. Investiu vários milhões (bilhões?) de dólares, deu emprego, responde por 15% do PIB do país, chegou a trabalhar dois anos com prejuízo etc. Ou seja, a estatal brasileira não é nenhuma criminosa, que mereça ser invadida pelo Exército nacional boliviano. Se a Petrobrás sair da Bolívia, o país literalmente vai à bancarrota.

Ou Morales quer uma guerra, ou é bronco (assim como Bush, que ele tanto critica), ou não tem nenhum tato diplomático, ou quer usar o fato como puro marketing. Bom, todas as opções trazem um pouco de verdade. Morales usou a nacionalização como peça eleitoral.

E Lula fala em “soberania boliviana”, “vamos respeitar o povo pobre da Bolívia”… A Bolívia vai “nacionalizar” (expropriar, roubar, escolha a palavra que lhe convir) toda a infra-estrura da Petrobras e Lula não vai dar um pio. Vai aceitar tudo numa boa falando em “paz na América Latina”. Que belo presidente temos.

E falando em camaradinha, o camaradão Hugo Chávez, presidente da Venezuela, foi o mentor de Morales, que disse, aliás, que se a Petrobras quisesse picar a mula, a PDVSA, estatal venezuelana de petróleo, estaria pronta para entrar em seu lugar. Isso diz muita coisa sobre os dois – algo sobre honra, amizade, respeito.

Não sei o que Lula está pensando, mas eu estaria muito irritado com Morales e Chávez. Muito mais do que quebrar contratos comerciais entre países, os dois o traíram, o desrespeitaram. O “Jornal da Globo” chegou a dizer que Lula só se referia a Morales com palavrões; verdade ou mentira, o certo é que, publicamente, nem um ai. Uma pena.

O engraçado disto tudo é que a estatal brasileira foi, até agora, a única nacionalizada. Morales diz que pretende continuar a nacionalização, agora na área da mineração. A Apex Silver, a maior empresa que atua nesta área, não será nacionalizada. Um dos ministros de Morales disse que não pensa sequer em nacionalizá-la, disse que apenas conversará para discutir um novo contrato. Detalhe: a Apex Silver é norte-americana. Isso diz muita coisa sobre a política externa brasileira.

(Publicado em maio de 2006)

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