Carlos Eduardo Moura | blog

1 November 2008

Gente insuportável

Filed under: Brasil, Nonsense, Política — Carlos Eduardo Moura @ 12:35

Acho um porre pessoas que querem representar uma classe, em vez de representarem a si mesmos. Jornalistas com MTB debaixo do braço, negros de “carteirinha”, gays que defendem uma “bandeira” são uma gente chata ao extremo. Insuportáveis.

Esses dias, assistindo ao Jornal da Globo, vi uma reportagem sobre os negros de Chicago, mais precisamente da região onde Barack Obama nasceu. Entoavam uma música: “Quem for negro e não votar em Obama, perderá sua carteirinha de negro”. Dizer o quê? Tem que ter carteirinha agora?

Na disputa Kassab x Marta houve algo parecido. Diante das fatídicas perguntas “É casado? Tem filhos?”, no programa eleitoral martista, houve uma grita contra. Marta sempre foi uma espécie de defensora dos gays e oprimidos (no que está certa), por isso a estranheza e a ralhação geral. Insinuava-se, na propaganda, que Kassab seria gay e, por isso, teria menos capacidade para ser prefeito. Uma besteira, é claro.

Os defensores de Marta (alguns dos “blogueiros com Marta”) rebateram acusando “hipocrisia” da mídia (é sempre fácil desviar do assunto e acusar alguém de hipocrisia, né?). Marta disse que não sabia da propaganda (a la Lula). Alguns blogueiros chegaram a pedir, pelo bem da causa, que Kassab assumisse.

Quanta bobagem.

20 September 2008

Algumas palavras sobre Lula

Filed under: História, Brasil, Egotrip, Nonsense, Política — Carlos Eduardo Moura @ 2:30

Vou dizer em poucas palavras o que penso do presidente Lula. Segurem-se.

Escrevo este texto por dois motivos: pelo texto de Rafael Galvão (que não leio, mas foi linkado em alguns blogs que leio) e pelas declarações de Lula sobre o casamento gay.

Sobre o casamento gay. Eu acho que cada um faz o que quiser de sua vida, desde que siga condutas minimamente aceitáveis por todos - como, sei lá, não matar, não roubar etc. Não precisa nem ser educadinho e gentil.

Se dois homens e/ou duas mulheres querem casar-se entre si, ok. São livres para fazer o que quiserem. Não é o Estado ou uma religião que deve proibi-los. A religião até pode dizer: “Olha, isso não é legal, você vai pro inferno”, etc. e tal, porque uma religião segue quem quer. Não tem efeito legal nenhum, num Estado laico. Mas o Estado não pode ter o direito de interferir na vida das pessoas.

Sobre o texto do Galvão (haaaaja coração…!). Acho que o maior mérito do Lula foi não ter feito nenhuma bobagem na economia. Seguiu a política de FHC que vinha dando certo - de cabo a rabo. Deixou técnicos no Banco Central e botou lá um bobão feito o Guido Mantega pra fazer figuração no Ministério da Fazenda. Ok, faz parte. Ainda bem que Lula perdeu as eleições anteriores a 2002 que disputou. Imagina o Lula querendo estatizar os bancos…

Diz o Galvão: “Ao longo dos últimos seis anos, assisti à oposição fazer de tudo para desacreditar o presidente que eles não conseguiram derrubar”.

À oposição cabe fazer oposição. O PT passou bons anos fazendo isso, de forma tosca muitas vezes - quem se lembra das críticas ao Plano Real? Era torcida contra mesmo. Mas se renderam, depois. Não acho que a oposição quis derrubar Lula. Sempre há as exceções. Mas, no geral, havia a tese do “vamos deixar Lula sangrar”. Sangrou, não caiu e ainda por cima voltou mais popular. Faz parte do jogo.

Aliás, registre-se aí que, no auge do mensalão, Lula pedia a Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, para “conversar com o Fernando Henrique”, para tentar esfriar as coisas. E FHC atendeu aos pedidos e, realmente, deu uma esfriada na coisa. Fico tentando inverter isso e não consigo imaginar Lula pedindo menos ímpeto de seus correligionários. Isso me lembra Tarso Genro gritando e pedindo a renúncia de FHC… golpistas, sei, sei.

“Chamaram-no de despreparado — e com o ele o Brasil passou a ter uma proeminência internacional que está matando Fernando Henrique Cardoso de inveja e despeito, aos pouquinhos”.

A gente podia dar uma incrementada na frase acima, sei lá, sugestão: “Chamaram-no de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro em puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro”. Que tal?

O Brasil vem crescendo, se desenvolvendo e ganhando “proeminência internacional” não por conta de Lula, e sim por conta de um processo, lento, que teve início no governo Collor, quando o país se abriu ao mundo. Lula vem dando seqüência. Poderia até dizer que o Brasil cresce “apesar do Lula no governo”, mas hoje já não é mais por aí.

“Chamaram-no de analfabeto — e ele criou o ProUni.”

O que tem a ver uma coisa com outra? E o ProUni, bem, o ProUni… aquele projeto que paga faculdades fundo-de-quintal para receberem alunos de baixa renda, negros e indígenas, que não teriam condições de entrar nas federais ou nas boas particulares. Sou totalmente contra. Mas acho que não vem caso discutir isso agora. Fica pra uma próxima.

“Lula venceu. E a oposição jamais vai conseguir admitir que, do pedestal de sua arrogância, de sua escolaridade, perdeu para um pau-de-arara de Garanhuns, que mostrou que não era ela a mais preparada para dirigir um país do tamanho do Brasil. E por não entender isso, por discordar do projeto de país encabeçado por Lula, essa oposição se perdeu completamente, pregou o golpe às vésperas da eleição, apostou na mentira e no engodo, se recusou a admitir que o país estava melhorando.”

Lula venceu e governou. A oposição aceitou e faz - porcamente, vá lá - oposição. Não vi - mais uma vez - pregação de golpe. Esse pessoal adora deixar as coisas mais heróicas e dramáticas. Menas, menas. Só falta dizer que Lula precisou pegar em armas para ir para o poder. Lutou semanas contra a oposição raivosa e golpista, combateu e foi combatido, sangrou e fez sangrar, matou e morreu um pouquinho (é highlander), mas sobreviveu e mudou a história do Brasil. É isso aí mesmo. Bem por aí. Nunca antes na história deste país tivemos um presidente tão corajoso e gostosão - só o Gegê chegou perto.

“…eu aproveitava para tirar fotos da bundinha do presidente.”

Preciso comentar?

“Tem a ver com uma posição tomada que, mais uma vez, me deu orgulho do presidente que tenho, em quem votei e de cujo projeto indiretamente faço parte. Lula foi o primeiro presidente a dizer que é a favor da união civil de homossexuais, e a Igreja que se vire com isso. Eu tenho orgulho de ter um presidente como Lula.”

Olha, não vou pesquisar se outros presidentes disseram isso ou não. Mas ter orgulho de político? Pedro Sette Câmara escreveu a frase perfeita: “O que me parece pueril e vergonhoso é o fervor que se pode sentir por um político” (ele escrevia sobre Sarah Palin e Barack Obama). É isso.

Além disso, o que mais dá pra falar? Lula é craque em soltar pérolas. “Nunca antes na história desse país…”, e tome discurso populista sobre qualquer assunto possível: petróleo, educação, saúde, moradia, segurança, política externa, futebol etc. Quantas vezes você viu FHC falar de “herança maldita”? E olha que ele tinha motivos. Depois do furação provocado por Collor, o país estava fodido, basicamente - a inflação anual chegou a 2.477% em 1993. Em 98, a inflação chegou a 1,6% por ano.

Para muitos defensores de Lula, parece que figuras como Delúbio Soares, Silvinho “Land Rover” Pereira, Marcos Valério e Duda Mendonça nunca existiram. É tudo conspiração da elite pra derrubar o operário na presidência. E o Meirelles no Banco Central, hein? Não era pra ser a Maria da Conceição Tavares? Tadinha dela…

Acho um tédio ainda ficarmos discutindo isso. Tchau.

5 September 2008

Quatro anos sapateando

Filed under: Brasil, Vídeos, Política — Carlos Eduardo Moura @ 11:04

Excepcionais os vídeos criados pela W/Brasil para o TSE para as eleições deste ano. O conceito dos vídeos é: “Quatro anos é muito tempo. Principalmente quando as coisas não vão bem. Por isso, antes de votar, pesquise o passado dos candidatos. Porque são eles que vão cuidar da sua cidade nos próximos quatro anos”.

Num deles, Lúcio sapateia sempre que fica nervoso; Mariana anda em círculos sempre que está com pressa; Mário convive com uma abelha dentro do ouvido há quatro anos; e João Paulo sempre se emociona com o toque do seu celular.

Idéias e produções fantásticas.

16 July 2008

Satiagraha

Filed under: Nonsense, Política — Carlos Eduardo Moura @ 3:25

Olha, até tentei ler um pedaço do tal relatório do tal Protógenes, o tal delegado que foi afastado da tal operação Satiagraha (que nominho…). Eita cabôco que escreve mal! Devia voltar pra escola, mesmo!

Não é a toa que a justiça no Brasil seja assim, morosa e impune contra os “poderosos”. Como é que se vai colocar gente do calibre de Daniel Dantas na cadeia, escrevendo um relatório manco desse jeito?

Além do mais, esse tipo de operação, com prisão vai-e-volta e habeas corpus pra lá e pra cá, só parece dar fôlego à defesa, que vai espernear por conta de uma suposta “espetacularização” de tudo e vai deitar e rolar com um relatório frágil e cheio de erros. Saca só a redação:

DANIEL orienta pular fora do negócio, diz que tem coisa estranha que não sabe o quê que é. Acha que tem fundo de comércio, atingir de qualquer jeito. Briga que não vale a pena. Diogo (Mainardi) chamou atenção apoio institucional ‘eles’ atacarão de qualquer forma se sentirem acoados. DANIEL quer recuar. ‘Ele’ não tem limite, ninguém sabe contra o quê ele está brigando. Diogo mandou esse negócio para os Procuradores. DANIEL diz que ‘ela’ já recuou. DANIEL está preocupado. DANIEL aconselha a não fazer. Referente ao assunto TELECOM ITÁLIA. Assunto TELEMAR pode continuar. Ele é muito nervoso. DANIEL diz que ‘ele’ está comprometido demais.

E aí, deu pra entender alguma coisa?

7 July 2008

As Farc perderam

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 8:02

É impressionante como se diz bobagem sobre o resgate de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns. Eu mesmo corro o sério risco. Mas dizer que as Farc ganharam alguma coisa com a libertação (”simpatia” ou algo do tipo) e que Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, não obteve uma baita vitória pra mim é bobagem.

Não acredito ter havido o tal pagamento de vinte milhões de dólares ao comando das Farc. Dinheiro por dinheiro, as Farc teriam preferido o de Hugo Chávez, que já vinha tentando a libertação de reféns. Chávez é muito mais ligado ao grupo guerrilheiro e com certeza usaria uma possível libertação para tentar se colocar como “libertador” e “conciliador da paz”.

Agora, não duvido da hipótese de ter havido suborno entre o baixo clero do grupo. Mas isso não tira os méritos do Exército colombiano. Jorge Castañeda, no Estadão deste domingo, fez a melhor análise sobre a questão: “Pode ter havido outrs elementos, principalmente por conta da fragmentação da guerrilha. Dinheiro, recompensa, traições internas, tudo por ter ocorrido. Mas, se ocorreu, é porque as Farc já estão enfraquecidas. Já existe um clima de derrota resultante dos golpes recebidos nos últimos meses. Se houve traição, foi por causa desse desmantelamento. De qualquer modo, o sucesso tem a ver com o avanço do Exército. Não devemos negar-lhe esse mérito.”

Agora, Uribe cairá na tentação de mudar a Constituição do país (via referendo) e tentar se reeleger pela terceira vez. A opinião pública lhe dá mais de 90% de aprovação. É tentador dizer que Uribe deveria continuar, tamanho o sucesso na condução de políticas contra a violência e no desmantelamento das Farc, junto aos EUA no Plano Colômbia; mas essa perpetuação no poder não seria bom caminho para a democracia. Vide Hugo Chávez na Venezuela.

10 June 2008

É pra saúde

Filed under: Brasil, Nonsense, Política — Carlos Eduardo Moura @ 10:11

Com a desculpa esfarrapada de compensar as perdas com o fim da CPMF, governo e aliados querem criar um novo imposto: a CSS, a Contribuição Social para a Saúde. O principal argumento é este: com o fim da CPMF, a área da saúde ficou sem grana. A CPMF tributava em 0,38% as operações financeiras – deste porcentual, apenas uma parte era destinada à saúde.

Com a CSS, quer se tributar sei lá mais quantos porcento (0,10%, salvo engano). “É pra saúde, que ficou sem dinheiro graças à oposição que derrubou a CPMF”, dizem os aliados.

Eles só esquecem de dizer que, para compensar o fim da CPMF, o governo aumentou, no comecinho do ano (no dia 2), uma batelada de impostos: aumentou em 0,38% as alíquotas de IOF (para operações de crédito e câmbio) e duplicou o mesmo imposto para operações de crédito a pessoas físicas. Além disso, aumentou de 9% para 15% a alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) do setor financeiro.

Quer dizer, a CSS é uma cascata enorme. E tem gente que engole, “pois o dinheiro é pra saúde, e com saúde não se brinca”. Pfff, tá bom.

29 April 2008

Ficou bravo

Filed under: Brasil, Nonsense, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 5:31

Nada como lembrar quem são e como agem algumas pessoas…

9 February 2008

O mundo é desigual e injusto. Ponto

Filed under: Mundo, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 6:00

Ler esta história dos estudantes cubanos que vêm fazendo críticas ao regime (aqui e aqui) - embora os estudantes sejam partidários da “revolução” -, só reforça uma coisa que penso há muito tempo: o mundo é desigual, injusto e é assim mesmo. As pessoas - em qualquer regime que seja: capitalismo, socialismo - sempre serão diferentes, sempre terão comportamentos diferentes. Sempre haverá desigualdade, injustiça. Estou defendendo isso? É óbvio que não.

Essa história de o socialismo querer igualar as pessoas, com uma pretensa “igualdade de direitos”, é uma tremenda fraude. Veja o que o governo de Fidel Castro conseguiu depois de anos e anos de ditadura (partido único, imprensa estatal etc.). As pessoas não têm sequer o direito de ler os livros que querem ler, acessar os sites que quiserem, sair do país para nunca mais voltar, se assim desejarem fazer.

A liberdade não seria muito mais interessante do que uma pretensa igualdade? Até porque, sejamos honestos, igualdade em Cuba não existe. Há e sempre haverá os privilegiados, a burguesia estatal, os que mamam nas tetas do governo - de qualquer governo.

Repetindo aqui um argumento surrado, mas válido: as pessoas têm o direito de fazer as suas próprias escolhas. Um país só crescerá assim: escolhendo, errando, batendo cabeça. É o velho aprender com os erros.

Não existe aquela lenga-lenga de não mimar demais os filhos, não protegê-los da “vida real”, para que cresçam por si só, errem e amadureçam? Pois é. O que estes governos ditatoriais querem fazer é a monumental estupidez de “proteger” as pessoas - o que é pior: achando que as pessoas são coisa, propriedade, uma massa sem direito a escolhas. Isso me soa tão velho e retrógrado. Querem proteger as pessoas da subversão, da pornografia, do comunismo, do capitalismo, das injustiças.

JP Coutinho entrevista Mainardi

Filed under: Brasil, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 5:29

Puro ouro a entrevista que JP Coutinho fez com Diogo Mainardi. Aliás, Coutinho, escondido na Pensata da Folha Online, escreve, quinzenalmente. Uma das melhores colunas publicadas no Brasil.

É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. “Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa”, digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. (…)

Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular. (…)

Eu estive no Brasil em dois momentos marcantes dos últimos anos: quando o mensalão estava no auge e nas últimas eleições. E fiquei pasmo com pessoas educadas, fluentes e letradas que diziam que votariam em Lula, não em Alckmin?

Pessoas educadas, fluentes e letradas que votam em Lula? Não conheço. Acho que você está freqüentando demais os jornalistas da Folha de S.Paulo.

9 December 2007

O baixinho do iG ataca outra vez

Filed under: Brasil, Nonsense, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 3:28

Prometo que esta é a última vez que falo neste blog de Paulo Henrique Amorim, o baixinho do iG. Ele me saiu com uma tirada tão espirituosa dia desses, que não resisti. Vou agrupar num parágrafo só pra agilizar:

“O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso chamou o Presidente Lula de analfabeto. Disse que o Presidente Lula não sabe falar a Língua Portuguesa (clique aqui). Como no Brasil, quem é analfabeto é pobre, negro e nordestino… E como, no Brasil, quem não sabe usar a Língua Portuguesa é o pobre, o negro e o nordestino, Fernando Henrique Cardoso é racista e tem preconceito social…”

Primeiro achei que era uma ironia, até pelas reticências…, mas depois vi que era meio sério o negócio, porque num outro texto PHA diz que mandou esse texto brilhante para a Universidade de Brown, onde FHC é professor: “O Conversa Afiada achou recomendável encaminhar este Máximas e Mínimas e todos os que aqui se referiram ao racismo e ao preconceito do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao diretor, aos professores e aos alunos do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, onde FHC é “professor at large” e posa de estadista”.

Voltando ao primeiro texto: FHC disse que Lula não usa direito a língua portuguesa. FHC não disse que Lula é analfabeto. Analfabeto é quem não sabe ler e escrever. Tem muita gente que fala errado, mas não é analfabeto, sabe ler e escrever. Lula não é analfabeto, embora pareça (ok, péssima piadinha, reconheço…).

No resto, tirando as vírgulas fora de lugar, a seqüência que fala que quem não sabe usar a língua portuguesa “é pobre, negro e nordestino” e que, portanto, FHC é racista e tem preconceito social, é de uma lógica límpida, cristalina. Brilhante mesmo.

Paulo Henrique Amorim não sabe o que quer dizer analfabetismo e racismo. E ainda quer posar de jornalista moralmente superior.

Ao receberem o raciocínio torto de PHA, o diretor e os professores da Universidade de Brown devem ter gargalhado do infantilismo do nosso baixinho.

4 December 2007

Entrevista com Diogo Mainardi

Filed under: Brasil, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 7:49

Diogo Mainardi: “Lula prefere o conchavo, sempre. A reação preferida dele é a de compra e venda”

Liguei para a casa de Diogo Mainardi às duas e meia da tarde do feriado da Proclamação da República. Uma moça, provavelmente a empregada da casa, atendeu e avisou-me: “O Diogo está dormindo”.

Fui imediatamente jogado para uma de suas colunas, na qual ele diz que passaria boa parte do segundo mandato do governo Lula dormindo: “Tenho dormido muito. Durmo antes do almoço. Durmo depois do almoço. Cochilo meia hora no fim da tarde. Durmo profundamente a noite toda. A idéia é transcorrer os quatro anos do segundo mandato lulista na cama. A lógica é simples: uma hora a mais de sono significa uma hora a menos de Lula”. Temi pela entrevista.

Por sorte, ao ligar novamente uma hora depois, foi o próprio Diogo quem atendeu ao telefone. Simpático, com uma leve tosse a lhe interromper as respostas, ele discorreu sobre o governo Lula, imprensa, Congresso Nacional e aspectos culturais do país.

O trecho da coluna acima, e outras 94, publicadas entre março de 2005 a setembro de 2007, estão presentes no recém-lançado “Lula é Minha Anta” (Record). Os textos, que trazem adendos e explicações de contextos, compõem uma radiografia do que foi o governo Lula nos últimos anos. Quando se quiser estudar a fundo o que de tenebroso aconteceu no período, as colunas de Mainardi serão fonte obrigatória. O que veio antes, desde que Mainardi se tornou colunista de “Veja”, no carnaval de 1999, está em “A Tapas e Pontapés” (Record).

Mainardi se tornou figura de destaque durante o governo Lula. Quando, no início do primeiro mandato, boa parte da imprensa entusiasmava-se com Lula no poder, Mainardi tratava de criticar ferozmente os jornalistas e os petistas. Brigou e polemizou com meio mundo.

Colunista mais lido e comentado de “Veja”, Diogo Mainardi, 46, casado e pai de dois filhos, escreveu quatro romances (“Malthus”, “Arquipélago”, “Polígono das Secas” e “Contra o Brasil”) e dois roteiros cinematográficos (“16060” e “Mater Dei”). Além da coluna, Mainardi produz um podcast semanal para o site de “Veja” e participa do programa de debates Manhattan Connection, no canal a cabo GNT.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Durante os últimos três anos, seu esporte preferido foi a caça ao Lula…
Diogo Mainardi –
Eu já estou indo pro quinto ano. Eu comecei em 2002 tentando desmoralizá-lo.

Você se sente frustrado por ele ainda estar no poder e ter certa popularidade?
Não, eu não sou político, não estou atrás do efeito do meu trabalho. Não sou eu que tenho que tirá-lo de lá, não sou eu que tenho que fazer também todas as apurações. Não posso pôr ninguém na cadeia, infelizmente; não posso processar; não posso violar sigilo bancário. Eu tenho as armas de que disponho: a curiosidade, o interesse e certo temperamento avesso a mistificações. E alguns instrumentos pra tentar chegar a alguma clareza sobre o funcionamento da política brasileira, de como a gente funciona, de como a gente se reflete na política.

Por que o Lula conseguiu se reeleger e ter ainda popularidade? As pessoas ficaram tão cansadas de ver escândalo, que acharam melhor deixar pra lá?
Houve um fato objetivo, uma proteção por parte da oposição e por parte da imprensa. Esse fato foi muito evidente desde o começo, quando o Lula estava lá embaixo. É uma mentira que a popularidade dele não tenha sido afetada pelos escândalos. No final de 2005, a popularidade estava lá embaixo. Ali se fez um cálculo, a oposição contou com a ajuda da imprensa, da academia, de todos os setores que sempre tiveram simpatia pelo PT e pelo Lula, e se tentou levar adiante a presidência até o final, sem envolvê-lo diretamente nos escândalos, para substituí-lo de maneira macia e sem expor a própria roubalheira da oposição. Havia muito medo, muito temor, de uma retaliação, que a investigação da roubalheira do PT recaísse sobre a roubalheira dos partidos que vieram antes. Como eles roubaram das mesmas fontes, era muito difícil chegar ao fundo da questão.

Ninguém queria que se apurasse nada.
Não, ninguém queria. Os interesses são cruzados aí, inclusive com as empresas nacionais. O que a gente tem no Brasil é um capitalismo manco. Algumas das maiores empresas, muitas das que participaram das privatizações, têm muito dinheiro estatal, que vem através de financiamentos do BNDES, do Banco do Brasil, dos fundos de pensão… Então, a promiscuidade é muito grande entre os nossos capitalistas e a política.

Qual vai ser a herança do governo Lula?
Igual a do governo Sarney, do governo Collor, do governo Itamar, do governo Fernando Henrique. Vai ser mais um período que será recordado como um buraco, mais um período em que o país não fez nenhum salto adiante, não olhou pra frente, não reformou o que tinha de ser reformado. Não trouxe novas idéias, não melhorou a visão que o país tem a respeito de si. Acho que é mais do mesmo. Serão oito anos que a gente empurrou as questões nacionais com a barriga.

Há possibilidade de um terceiro mandato do Lula?
Não acredito. Eu acho que se não houvesse risco algum, o Lula certamente optaria por um terceiro mandato. Mas ele não é uma pessoa de conflito. Nas tentativas que fez de controlar a imprensa, no primeiro mandato, por exemplo, quando a situação começou a apertar e houve reação do outro lado, ele puxou o carro. O Lula prefere o conchavo, sempre. A reação preferida dele é a de compra e venda. No caso do terceiro mandato, ele pode até conseguir, usando bem os canais de compra e venda, obter uma autorização ou modificação na Constituição para que possa concorrer ao terceiro mandato. Mas o custo vai ser tão grande, o confronto vai ser tão grande, que eu acho que ele não está disposto a enfrentar.

Você falava da imprensa, de como ela foi submissa nos primeiros meses do governo Lula. Você fez a famosa listinha dos jornalistas alinhados… (Mainardi apontou como governistas nomes como Franklin Martins, Tereza Cruvinel, Maria Helena Chagas, Paulo Henrique Amorim e Kennedy Alencar.)
Uma parte deles foi pro governo. Alguns perderam o emprego, outros foram pro governo. Alguns tentaram se desmarcar.

Você acha que a imprensa hoje está mais vigilante?
Sim. Ela está menos alinhada. Quando a gente fala que a minha luta foi infrutífera, eu acho que, claro, o Lula está aí, foi reeleito e ainda é muito popular, mas no nosso ambiente sabe-se exatamente o que é Lula. E a imagem romantizada que havia a respeito dele não existe mais. Então, ele perdeu uma aura que lhe garantia a intocabilidade. Nesse ponto, a imprensa está mais atenta. Mas, por outro lado, existe uma falta de curiosidade pra investigar o governo, e às vezes até falta de material humano, que impedem qualquer tipo de reação mais articulada aos desvios do poder.

Você chegou a ir ao Congresso Nacional. Como são os nossos políticos?
Eles são tão ruins quanto a gente poderia supor a distância. A minha viagem foi totalmente inútil, porque eu não precisava ir ao Congresso pra ver como eles são ordinários. Você não precisa empreender essa viagem, colocar paletó e gravata e agüentar o salão verde, ou o azul, aquele carpete… Você pode ver essas coisas a distância. Acho o contato com eles bastante nocivo, para os profissionais de imprensa sobretudo, porque cria vínculo pessoal, e vínculo pessoal em política é sempre danoso.

O Congresso é um espelho bastante acurado do Brasil?
Ele reflete o que a gente tem de pior, sem dúvida. É um reflexo do Brasil. O Congresso consegue concentrar o que nós temos de mais retrógrado, de mais burro, de mais inescrupuloso.

Você escreveu que “Tropa de Elite” encerrava uma discussão. Por quê? Aliás, o que você achou do filme?
O filme eu achei bastante medíocre, leva uma hora pra começar. Muita enrolação de lingüiça. Na primeira hora, o filme é bastante médio. Não me entusiasmou. Mas, na questão da violência, o que me incomoda é que se considere solução tudo o que não é solução, tudo o que é periférico, secundário. É um ponto que eu venho insistindo há muito tempo. Quando aparecem explicações pro fenômeno da criminalidade no Brasil, ou soluções que não envolvem repressão, polícia, cadeia, eu tento desmontar essas teses, porque elas são contraproducentes. Elas acabam insuflando a violência. Quando você aponta as soluções erradas, tipo programas sociais, Bolsa Família, diminuição de desigualdade, ou todo esse tipo de papo furado. Quando você começa a enfrentar as questões práticas do combate à criminalidade e da violência com polícia, cadeia, legislação rigorosa e aplicada com rapidez… Esses pontos não são tão complicados assim. A gente perdeu vinte anos com planos mirabolantes pra resolver a hiperinflação. E existe uma questão técnica ali, que quando foi enfrentada de maneira menos criativa deu resultado. Os problemas parecem muito maiores quando as soluções apresentadas são falsas. Quando as soluções apresentadas são mais simples e mais diretas, costumam funcionar melhor.

Existe uma característica geral do caráter do povo brasileiro?
Eu comentei num podcast com o Reinaldo Azevedo uma pesquisa do Instituto Ipsos, que mostra que 50% dos brasileiros nem sabem apontar o Brasil no mapa-múndi. Então quando a gente não sabe nem de onde vem, é difícil tratar o país como uma entidade fechada. Eu acho que a gente é esse troço aqui, a gente é um país subdesenvolvido, com idéias atrasadas. E quem puder sair daqui faz muito bem.

O Brasil é um espelho da colonização, do que foi feito no passado?
Ele certamente é o resultado do que se fez aqui, antes da colonização, durante e depois da independência. A gente é resultado de um monte de escolhas mal feitas, culturas retrógradas, de idéias regressivas, que criaram esse caldo de subdesenvolvimento.

O Brasil produziu gênios?
A gente tem uma literatura bastante melhor do que o país, por exemplo. A gente não tem uma literatura de nível internacional, mas é uma boa literatura, que retrata bastante bem o país. Alguns grandes escritores, e uma porção de médios, conseguiram criar uma língua, deram uma cara pro país, melhor do que o próprio país. São os mesmos de sempre, não vou ficar citando Machado de Assis e Lima Barreto, mas são os nossos autores, não vou dizer ninguém que não esteja editado pessimamente, com péssimas ilustrações, ou que não esteja em alguma edição de livros de bolso.

Thoreau disse que “o melhor go­verno é o que governa menos”, você concorda?
Não tem a menor dúvida. Mas é uma experiência que a gente ainda não teve. Está bem longe. E quando se fala em governo, é dinheiro. Quanto menos dinheiro estiver na mão do governo, melhor. É mais simples do que uma questão de formação do país, não é nada inatingível, não é nada que não possa ser atingido com um bom emagrecimento dos gastos do Estado. Você mede o excesso de governo pela quantidade de dinheiro que ele administra e o que faz com esse dinheiro. É mais simples do que uma questão toucquevilliana.

TRECHO
“Chegaram a atribuir motivos ideológicos à minha campanha contra o presidente. Não é nada disso. Tentei derrubá-lo por esporte. Há quem pesque. Há quem cace. Eu não. Prefiro tentar derrubar Lula. Ele é minha anta. Ele é minha paca. O fato é que atirei tanto, e em tantas direções, que acabei atingindo um monte de alvos. Virei o cacique Cobra Coral do parajornalismo.” (Diogo Mainardi, em “Lula é Minha Anta (240 páginas, editora Record, R$ 35,00), coletânea de artigos publicados na revista “Veja” entre março de 2005 a setembro de 2007.)

27 September 2007

Eu, Tutty Vasques

Filed under: Brasil, Política — Carlos Eduardo Moura @ 11:19

Primeiro, Franklin Martins foi para junto de Lula. Agora, foi a vez de Tereza Cruvinel.

Paulo Henrique Amorim já está ficando com ciúmes! Só se fala disso na Record.

O original, aqui.

25 September 2007

A história da guerrilheira holandesa das Farc

Filed under: Mundo, Política — Carlos Eduardo Moura @ 7:30

Tanja Nijmeijer era uma jovem e idealista holandesa quando resolveu largar sua confortável e tranqüila vida para se tornar uma guerrilheira das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Em 2001, após concluir sua graduação em letras com especialização em espanhol na Holanda, ela decidiu retornar à Colômbia, onde havia passado um ano em um programa de intercâmbio. Seu objetivo era fazer trabalhos humanitários. Acabou conhecendo as Farc e se tornou uma guerrilheira. A guerrilheira Eillen.

Tanja-Eillen virou notícia pois um diário seu foi descoberto após um ataque do exército colombiano ao acampamento coordenado por Carlos Antonio Lozada, dirigente das Farc. No momento do ataque, Tanja tomava banho e não teve tempo de recolher as suas coisas. Um computador pessoal de Lozada também foi deixado pra trás. O conteúdo do diário foi revelado pelo jornal “El Tiempo” (aqui).

No diário, a guerrilheira mostra profunda decepção com a organização do movimento. “Estou cansada das Farc, cansada dessa gente, cansada da vida em comunidade e de nunca ter nada só pra mim. Que tipo de organização é essa em que alguns têm dinheiro, cigarros e doces e os demais têm de mendigar? (…) Uma organização onde uma garota com peitos grandes e rosto bonito pode desestabilizar um comando que havia trabalhado junto por muito tempo. Onde temos que trabalhar todo dia, mas os comandantes falam merda. (…) Não quero mais blábláblá sobre ser comunista, honesto, não desperdiçar, ser obediente. E logo ver quão hipócritas são os comandantes… e sem misericórdia se alguém atreve-se a criticá-los”.

Tanja diz também que os guerrilheiros precisavam pedir permissão até para namorar. “Consegui um ‘amigo’ e combinamos de ele ir conversar com o chefe para permitir que namorássemos”, ela escreve. Os líderes do movimento acreditam que relacionamentos entre guerrilheiros atrapalhariam a luta.

Mas a regra, é claro, não é válida para eles: “A mulher de um comandante é uma classe à parte. Elas têm privilégios e, às vezes, nos dão ordens.”

“Hoje há festa. É claro que os comandantes e suas esposas tiveram sua própria festa privada. Os demais, a tropa, guerrilheiros regulares, os de baixo se permitirá terminar a bebida que eles não puderam tomar ontem”.

Ela diz mais: “Cheia das FARC, dessa gente, da vida em comunidade, cheia de não ter nada para mim. Tudo valeria a pena se eu soubesse porque estamos lutando, mas eu não creio em nada mais”. “Como será quando chegarmos ao poder? As mulheres dos comandantes em Ferraris, com silicone nos seios, comendo caviar?”

Ela reclama da arrogância, da hipocrisia e do machismo dos líderes. Diz que há dois companheiros com AIDS, talvez muitos mais. Ninguém usa preservativo, ela diz. Conta que quer ligar pra casa, mas não pode. Um dia, ela liga, sem permissão. “Agora só posso esperar meu castigo. A todos é permitido ligar, menos a mim. Não é ridículo? Talvez me deixem na selva para sempre, ou talvez no me permitam sair a missões fora depois deste pecado venial”.

“Às vezes, quero deixar de seguir ordens. Seguir ordens de um monte de machistas que tratam de matar passarinhos com rifles. Além do mais, tenho que me sentir como um nada o dia inteiro; que não tenho utilidade, e que tenho que fazer o que qualquer idiota me diga ou ser multada. Cada vez tenho mais multas”.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) dizem-se uma organização político-militar de inspiração marxista-leninista que combate as classes dominantes do país. Segundo o governo, as Farc têm hoje cerca de 11 mil combatentes.

Na rápida pesquisa que fiz, vi alguns duvidando do diário, sugerindo que ele seja uma mentira plantada pelo governo colombiano. Eu sinceramente duvido muito disso. A história da jovem idealista que quer lutar por um mundo melhor e vai pros cafundós do Juda lutar é bastante crível. Infelizmente.

13 September 2007

Estatais

Filed under: Brasil, Egotrip, Economia, Política — Carlos Eduardo Moura @ 7:50

Eu, num passado bem recente, era uma pessoa cheia de dogmas. Eu era jovem e idealista. Não concordava em ver “meu” país ser “vendido” a “preço de banana” por aí, que coisa. Eu acreditava que o Estado devia ser o dono de 100% de “nossas” riquezas. Eu acreditava que, no Brasil, um governo poderia ser ético, honesto e não usar as estatais em benefício próprio. Eu cheguei a acreditar que políticos queriam dirigir as estatais apenas pelo bom salário que receberiam. Vê se pode.

Essa lengalenga toda porque eu queria falar desse negócio de plebiscito da reestatização da Vale do Rio Doce, uma idéia tão sem cabeça, que me deu preguiça danada, mas eu resolvi mesmo assim tocar no assunto.

Em primeiro lugar, os que defendem essas estrovengas estatais acreditam piamente que isso seria melhor para o Brasil, pois uma estatal estaria interessada primeiro no consumidor, depois no lucro – ou melhor, uma estatal não precisaria ter lucro nenhum, podendo arcar até com prejuízos. Aí começa o problema: sem lucro, há sucateamento; com sucateamento, quem se dana é o consumidor.

Segundo: as estatais são fontes excelentes para os políticos arrumarem recursos para as eleições. Só não enxerga isso quem tem a visão embaçada por uma ideologia muito chinfrim. As estatais sofrem uma influência tremenda dos que estão no poder. São usadas por eles. É isso o que se quer? Quando você vê Lula dando a direção de Furnas ao PMDB (Luiz Paulo Conde), não é porque ele achou que o cidadão vai dirigir bem a empresa. Ele deu a direção porque foi pressionado a fazer isso. E aceitou a pressão. É assim que funciona – o presidente precisa amealhar apoios.

Quanto mais o Estado brasileiro se livrar dessas estatais pesadas, morosas, que só sugam dinheiro, melhor. Menos pressão e menos poder o Estado vai ter para fazer jogos sujos, chantagens e lobbies. É tão difícil perceber isso? Agora, obviamente eu não estou querendo dizer que tudo deva ser privatizado. O Estado tem um papel fundamental na vida de um país. Deve(ria) prover saúde, educação básica, cuidar das ruas, estradas, dar segurança, saneamento básico etc. a todos

Agora, queria citar alguns dados sobre a Vale. Num artigo no Estadão de domingo passado, Suely Caldas mostra alguns dados impressionantes:

Em 1997, ano da privatização, a empresa pagou US$ 110 milhões em impostos e dividendos. Em 2006, o número foi 23 maior: US$ 2,6 bilhões. De 97 a 2006, o número de funcionários aumentou 5 vezes, de 11 mil para 56 mil. As exportações triplicaram, de US$ 3 bilhões para US$ 9 bilhões. A produção passou de 100 milhões de toneladas para 250 milhões (ano).

Um número que eu achei impressionante: em 54 anos de controle estatal, a Vale investiu US$ 24 bilhões. De 2001 a 2006, ela investiu US$ 44,6 bilhões. O dobra, praticamente, em 20% de tempo. Mais: o Estado recebe quantias 20 vezes maiores hoje do que quando a empresa era estatal.

Então, porque a grita dos reestatizantes?

UPDATE

De Lauro Jardim na coluna “Radar” da VEJA deste fim de semana:

“O senador Edison Lobão (DEM/MA) votou a favor de Renan Calheiros, apesar de o seu partido ter fechado questão em torno da cassação. Beleza. Nos dias que antecederam a votação no Senado, Lobão recebeu uma notícia que amoleceu mais ainda seu coração com grossas artérias governistas: seu filho, Marcio, foi indicado pelo Banco do Brasil para presidir a Brasilcap, empresa de títulos de capitalização. Marcio, aliás, é sócio do pai em quatro emissoras de TV no Maranhão”.

12 September 2007

Palmas pra eles

Filed under: Brasil, Política — Carlos Eduardo Moura @ 3:46

E Renan Calheiros foi absolvido. Gostaria de pedir palmas eloqüentes aos valorosos do PT Aloízio Mercadante e Ideli Salvatti, que lutaram bravamente pelo nobre presidente do Senado. E usando o surrado argumento de que a cassação era coisa pra desestabilizar o governo. Pra essa gente, sempre é fácil dizer que há algum complô contra o governo Lula em curso. “Olha, não façam o jogo da oposição, eles, no fundo, querem é desestabilizar o governo”. Tá bom.

Sinceramente, dá nojo. Mas isso é o Brasil. Uma palavra na oposição, outra no governo.

Quando Renan faz ameaças veladas a outros senadores, “poderia ser com você”, no fundo ele está certo. Há inúmeros ali como Renan. Há inúmeros ali que compactuam com isso. Mas uma pergunta: vai se continuar aceitando até quando esse joguinho, esse acobertamento?

(O Noblat fez a melhor cobertura. E aqui a cronologia da coisa toda.)

30 August 2007

Não amacia, não

Filed under: Brasil, Política — Carlos Eduardo Moura @ 11:10

Ricardo Lewandowski, ministro do STF, disse ontem que “a tendência era amaciar para o Dirceu” no julgamento que decidiu a abertura de ação penal contra “os 40 do mensalão”. “Todo mundo votou com a faca no pescoço”, disse ele.

O detalhe é que o ministro disse isso num restaurante, quando falava ao celular com alguém. E uma repórter da “Folha” ouviu tudo e publicou no dia seguinte.

Dirceu fez beicinho e prontamente saiu dizendo que o julgamento está sob suspeição. “(…) estou perplexo, estupefato e quase em pânico. Isso é impensável em qualquer país”, disse. Falou até em “ditadura da mídia”.

Eu prefiro acreditar que o julgamento estaria sob suspeição ainda mais forte caso a imprensa não estivesse em cima, acompanhando o caso. No escuro, ninguém tem vergonha de nada, já diria um ditado. E, como disse o ministro, “a tendência era amaciar para o Dirceu”.

Dois extremos

Filed under: Egotrip, Política — Carlos Eduardo Moura @ 7:15

Recebi ontem, quando ia pra faculdade, um panfleto que dizia que Heloísa Helena estará em Campinas amanhã, para “atividades públicas”. Tive uma curta crise de riso ao ler que ela fará “panfletagem e coleta de assinaturas no centro da cidade sobre o plebiscito de reestatização da Vale do Rio Doce”. Depois, no plenário da câmara, receberá a medalha Dorcelina Folador, com “ato político na sequência da entrega solene”.

Depois da curta crise de riso, sobretudo pela reestatização da Vale, me veio uma sensação de mal estar mesmo. (Logo depois, eu lembrei que em uma aula um pessoal - dois caras, um com a camiseta do Che Guevara - do DA pediu a palavra para falar de eleições “livres e democráticas” e que todos deveriam cobrar a faculdade por mais computadores nos laboratórios e mais espaço no refeitório, cito quase que literalmente, “pois, como a própria faculdade admite que não dá conta de atender a todos, podemos ficar sem comida no intervalo”. Houve uma certa risada por parte de alguns por esse “sem comida no intervalo”. Quis perguntar se eles cobrariam a faculdade por melhores professores e aulas decentes, mas achei melhor deixar quieto. Esqueci que esse povo não costuma frequentar as aulas…)

Na aula, uma seção de vídeo. No filme, um sujeito, daqueles liberais velhões dos EUA, faz uma ode ao “progresso” e à iniciativa privada. Chega a dizer que tudo deveria ser propriedade privada (água, ar, todos os cantos) e que é assim mesmo que o mundo é. O duro é ver Noam Chomsky e Michael Moore (sim… ) fazerem o contraponto.

Volto pra casa, cansado.

E só um comentário curto: parece que muitos liberais não entendem muito bem o que quer dizer “boa moral” e, hmm, humanitarismo. Do outro lado, muitos não entendem muito bem o mundo onde vivem e querem um humanitarismo que nunca existiu e nem nunca existirá (além de serem, digamos, grossos em economia).

23 August 2007

Vai contar mesmo?

Filed under: Mulheres, Brasil, Política — Carlos Eduardo Moura @ 1:45

Do blog do Josias de Souza:

(…) E se prepara para levar um livro ao prelo. “Todo mundo pensa que meu livro tem dois capítulos: escândalo do Renan e historinha de amor que não deu certo. Nada disso. Vou contar coisas de Brasília que nunca foram publicadas.” Seguuuuuuuuuuuuuura, peão!

Vai mesmo? Vai contar nada. Está fazendo isso pra se promover ou, o que é pior (ou melhor, pra ela), fazer chantagem.

PS: E a desculpa pra essa nota foi, oras, colocar a foto dela aqui. ;)

19 August 2007

Larry Rohter fala

Filed under: Mundo, Brasil, Política, Jornalismo — Carlos Eduardo Moura @ 12:54

O correspondente do “New York Times” Larry Rohther fala hoje, em entrevista ao caderno Aliás, do “Estadão”, sobre o episódio da sua quase expulsão do Brasil há dois anos, por feito uma matéria sobre os hábitos etílicos do presidente. A entrevista está muito boa. Mostra bastante a diferença de mentalidade entre EUA e Brasil. Nesse caso, o Brasil ainda deixa muito a desejar.

Trechos:

A imprensa brasileira é tolerante ou crítica demais com o poder?
A questão é outra. Governar é fazer coisas. E fazer jornalismo é criticar. A crítica é um elemento-chave na profissão. Não vou ao extremo do “si hay gobierno soy contra”, mas é papel da imprensa olhar os governos e dizer “aqui está errado”. Agora mesmo, o grave acidente aéreo de SP virou símbolo de uma crise maior. Quais as razões que levaram ao desastre em Congonhas? Não sabemos. Mas há uma crise maior, crise nos serviços, afinal, somos usuários, não há como negar. Então, por que dizer que a cobertura está exagerada? Quem não lembra das críticas ao apagão de energia, feitas pelo PT, no final do governo do FHC? Falta de planejamento, falta disso, falta daquilo. Era uma crítica perfeitamente compreensível. Lembremos de como Bush apanhou da imprensa americana depois do furacão Katrina. E mereceu apanhar! Ver aqueles velhos morrendo em frente do estádio foi terrível. Pois ver os corpos carbonizados em Congonhas produz o mesmo sentimento. O povo sabe julgar. E nós, na mídia, somos instrumentos dessa opinião pública que ora castiga, ora absolve.

(…)

Quando escrevo sobre praia, futebol e mulher bonita, tem gente que pensa que estou folclorizando o País. Mas esses assuntos são parte da realidade, não há como ignorá-los. Já quando escrevo sobre as mazelas brasileiras, como miséria e racismo, daí um setor ufanista se levanta e grita “não toque no País!” Amigos brasileiros já me disseram: “Nós podemos falar essas coisas, você não”. Sou admirador de Nelson Rodrigues, que cunhou aquela expressão imortal em relação ao brasileiro, o “complexo de vira-lata”. Isso entra nessa conversa.

(…)

Na ditadura, você correu o risco de ser preso. Agora, com o País redemocratizado, correu o risco de ser expulso. Como recebe isso?
Pior: em 2004 corri o risco de ser expulso com base em lei dos anos 70, dos anos de chumbo. O Lula, perseguido pela ditadura, recorreu a uma lei da própria ditadura para me punir. Horrível.

(…)

Hoje, se você estivesse com Lula numa entrevista, perguntaria o quê?
Na comissão que investigou o escândalo Watergate, o senador Howard Baker repetia sempre a mesma pergunta em relação a Nixon: “What did the president know and when did he know it?” É a questão fundamental. Pois eu perguntaria a Lula a mesma coisa em relação ao mensalão: “Presidente, o que o senhor sabia e quando soube?”

18 August 2007

Bundões

Filed under: Mulheres, Brasil, Fotos, Política — Carlos Eduardo Moura @ 3:10

Essa da bunda aí em cima é a Íris, na “Playboy” deste mês. Achei o ensaio bastante bonito e elegante, embora pouco revelador. Há gente dizendo o Photoshop foi usado ao extremo, em algumas fotos. Essa foto mostra que sim, há evidências fortes de que isso tenha acontecido mesmo…

**

E falando em bundão, José Dirceu dá as caras na entrevista do mês da revista. Dirceu é aquele de sempre: critica alguns atos, mas diz que faria o mesmo. Não dá pra levar muito a sério o que ele diz. Alguns trechos:

“Acho que a imprensa é partidária, ideológica, engajada, com projeto político. Isso existe no Brasil. Pena que não existe uma nossa assim tão forte.” (…) “Eu quero um jornal pra gente também.”

(Repórter) “Por que deveria um governo, que está fazendo o que acredita estar certo, permitir que o critiquem? Ele não aceitaria a oposição de armas letais, mas idéias são muito mais fatais que armas.” O senhor concorda com a frase de Lênin sobre a imprensa? (Dirceu) A crítica é fundamental, outra coisa é campanha articulada por partidos e parlamentares. Não estou dizendo que o PT não tenha feito isso, que não fizemos no passado. Não estou dizendo que tem de fechar ou censurar os jornais. Só estou denunciando.”

“…O Lula não dá cheque em branco pra ninguém. Não é da natureza dela. Pelo contrário, ele delega, mas controla, cobra. Ele é um presidente da República que tem controle sobre tudo o que está acontecendo. O Lula trabalha, chega cedo e sai tarde.”

(Repórter) “O que achou do caso da quebra do sigilo bancário do caseiro Nildo? (Dirceu) Eu diria que é um caso a ser esclarecido.” (E já não foi? Quebraram o sigilo.)

“O Fernando Henrique pode cobrar 85 mil reais por palestra (invejoso! hahaha), e eu não posso fazer consultoria? No fundo, o que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia no outro dia. Porque no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas. E eu procuro trabalhar mais com empresas privadas que com empresas que têm relação com o governo.”

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